domingo, 20 de abril de 2008

Crise dos 30

Assistam Na Natureza Selvagem (Into the Wild). Filme injustiçado. Ótima direção, ótimas atuações, ótimas músicas (sim, Eddie Veder) e um fotografia maravilhosa, poética, que me faz lembrar outro injustiçado: Além da Linha Vermelha.
Se você está perto dos 30, e mais ainda, se você está nos 30 e poucos, não tem como não refletir. Chorei. Só me lembro disso ter acontecido no Filho da Noiva. Chorar de chorar mesmo, não de ficar emocionado. Tem um quê de Menina de Ouro: "She's got her shot". Só que mais poético e menos apelativo. Melhor filme em muito tempo.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Cem anos de solidão

Vez ou outra, nos deparamos com coisas que nos deixam estupefatos. Uma música, um acontecimento, uma notícia. Às vezes é uma pessoa que conhecemos. E às vezes é um livro. Recentemente fui arrebatado por um. Na verdade por vários, mas acho que um merece lugar de destaque: Cem anos de solidão, do escritor colombiano Gabriel García Márquez. Portanto, mãos à obra!

Provavelmente, possui um dos títulos mais sugestivos em que se poderia pensar, de maior impacto ou impressão. Mas, ao contrário do que poderia sugerir, não se trata da história de um ermitão, de um condenado, de um anônimo sozinho ou na multidão. Trata-se de uma família (perdão pelo plágio da orelha do livro) à qual não seria dada “uma segunda oportunidade sobre a terra”. Os Buendía, fundadores e últimos habitantes da cidade ficcional de Macondo, residentes numa espécie de inconsciente coletivo, no imaginário, no local onde se encontram todos e todo o mundo, são o próprio tempo onde se desenrolam a estórias do povoado e toda a sua saga, desde uma pequena vila à metrópole emergente à cidade em ruína. Ao redor de seus integrantes, dos integrados e dos agregados, de todos os Aurelianos X Josés Arcadios e mulheres da família, desde a matriarca Úrsula até a tataraneta Amaranta Úrsula e seu filho Aureliano com rabo de porco, dos ciganos, da companhia bananeira, das guerras e revoluções, o que cria a leitura é um sentimento incessante de déjà vu, de repetição, de recomeço, de eterno retorno, de um tempo que sempre volta e, paradoxalmente, sem volta. A reincidência dos nomes, as introduções dos capítulos (vários começam com uma construção extremamente parecida) e o constante tom de monotonia (no bom sentido) da narrativa evidenciam essa sensação de um tempo que não passa, que anda em círculos. Sobre essa monotonia, diz o autor que seu objetivo era “imitar o tom com que sua vó materna lhe contava os episódios mais fantásticos: sem alterar um só traço no rosto” (novamente com o perdão e agradecimento à orelha). As situações mais absurdas são introduzidas a todo o momento sem o menor pudor, sem a menor preocupação com inverossimilidades, o que cria uma fusão quase que simbiótica entre real e fantasia, numa interdependência mútua, como uma mitologia própria, onde o que é a realidade e o que é delírio pouco importa, já que para a memória, e ainda mais para as memórias de uma família de esquecidos, tudo é passado.

Talvez a grande genialidade do livro (sem querer dar uma de crítico literário), onde dificilmente há como se encontrar algo de menor destaque, seja a perfeita complementaridade entre o estilo da narrativa e ela própria, como que colorindo o contorno dado pela maneira que o autor escreve. É incrível pensar como a leitura por si só antecipa os acontecimentos, como as revelações (principalmente o insuperável, arrepiante e apocalíptico final) retomam toda a estória, um sentimento e uma percepção que diversas vezes transborda ao leitor. É algo que não se pode relatar exatamente, mesmo porque é a graça do livro. Só lendo pra entender. O cara de alguma forma conseguiu transmitir, através da expressividade da construção e do estilo, algo conceitual.

E por que solidão? Por que não Cem anos de delírios? De confusão? De absurdo?

Porque cem anos, pouco importa. Talvez por ser um século, um ciclo. E também pelo que o final relata (não vou estragar a leitura). Mas solidão, pois é isso o que são: uma família de solitários, afastados do resto do mundo, do progresso, dos “acontecimentos”, da história, das maravilhas do mundo moderno. Uma estória onde a história não toca, uma sociologia da intimidade, sobre as vivências que não dizem respeito a todos, mas a cada um. Por isso solidão. Pelo fato de num lugar de mitos a tecnologia ser um milagre. E por serem sós não só em relação ao mundo, mas entre si. Por se desconhecerem uns aos outros (talvez não Úrsula), por seu ensimesmamento, por viverem empresas próprias demais, até idiossincráticas. Nada mais real e contemporâneo.

Claro, pode-se dizer, há todo um viés político e histórico. Outro olhar pode ver um estupro imperialista ou globalizante, horizontalizante ou planificador em sua forma de destruir tradições à todo o custo, inclusive a de antigos modelos familiares. Macondo, arrasada pelo progresso, destruída por um cataclisma quase que mágico, pode significar o fim de um modo de olhar o mundo. Os malefícios do progresso, a exploração da América Latina, o colonialismo, econômico e cultural, toda a história de proveito tirado das pessoas e de suas terras e recursos, isso tudo está também registrado.

No mais, posso dizer que esse livro me marcou de uma forma especial por haver algo demais familiar nisso tudo, de extremamente conhecido na fantasiosidade geral empreendida; em verdade, nem tanto pelo fato em si, mas pelo contar, pela própria narrativa. Lembro-me claramente das longas e incríveis conversas noturnas que tinha ainda pequeno com um amigo já falecido de meu pai. Eram conversas despretensiosas, nascidas de um “boa noite” e um assunto a mais, de uma prosa já encerrada e esticada mais um pouco, de um restinho de papo que se tornava uma nova estória. Um senhor que morava no interior de Minas Gerais, na beirada de um rio, num lugar onde a técnica e a tecnologia também passavam ao largo como em Macondo, que, tanto quanto García Márquez e sua vó, me contava, sem alterar suas expressões, as coisas e eventos mais fantásticos como se fossem fatos vividos, com uma crença tão enraizada (sem a forçosidade de quem quer te fazer acreditar em algo, mas com a serenidade de alguém habituado a viver em tal mundo) que não havia espaço para dúvidas e nem para certezas. Era simplesmente isso e pronto. Lobisomens, reencarnações, conselhos de dentistas catedráticos, prostitutas, todos viviam num mesmo mundo, andavam lado a lado. Com certeza o seu Ivo não era “o último grande contador de histórias do século XX” (essa é a última orelhada, juro!), mas era um grande contador.