
Sempre tive uma questão sobre o mundo metal: O que seria do Metallica se o Dave Mustaine não tivesse sido chutado pra fora? Antes do lançamento do
Kill´em all, o guitarrista foi colocado meio desacordado em um ônibus e despachado de volta pra casa, substituído pelo Kirk Hammett, tendo que tentar sua vida à parte de sua ex-futura maior banda de metal do mundo.
Isso deve ser um golpe difícil de se recuperar, ser expulso de algo que ajudou a construir e, olhando em retrospecto, ele, de fato, até hoje ainda vive sobre a sombra do que poderia ter sido, cheio de ressentimento, que transparece em suas declarações e entrevistas.
Gostemos ou não, ele parece ter sempre ficado à espreita de seus ex-parceiros, para o bem e para o mal. Seu primeiro disco, Killing is my Business…, é um tanto genérico, não acrescenta nada que as outras bandas da época já haviam feito. Seu clássico da era thrash, Peace sells…, é quintessencial ao estilo, uma mudança radical em relação ao anterior, mas, coincidentemente, o Metallica, algum tempo antes, já tentava alargar o seu som. E se em 1988 esses se aventuravam ainda mais em suas pretensões progressivas do …and Justice for all, o Megadeth fazia o mesmo em 1990 no sensacional, absoluto e consensual Rust in Peace. E se o Metallica novamente modificava a sonoridade que tinha com o Preto, se afastando de complexidades e linearizando seu som, o Dave Mustaine caminhava na mesma direção com o Countdown to Extinction e o Youthanasia, e depois seguia o Load e Reload com o Cryptic Writings e Risk, e lá vai o trenzinho.
Sendo mais babaca, até o nome da banda fica meio que no rastro do passado, começando com M, de Mustaine.

Com Mustaine.
Temos, no entanto, que dar um crédito enorme ao cara. Três clássicos do primeiro disco do Metallica foram co-compostos por ele (Four Horseman, Jump in the Fire e Metal Militia), sem mencionar a Phantom Lord, dos guitarristas do thrash americano possivelmente ele é o mais dotado tecnicamente e foi capaz de montar a segunda maior banda do estilo. E isso não é pouca coisa. Você sai da maior de todas e constrói a segunda maior? Impressionante!
Quem conhece a banda já deve ter percebido que pulei (propositalmente) o So Far, So Good… So What. E fiz isso não simplesmente por ser o melhor álbum da carreira da banda, nem por ser considerado por muitos um tiro fora do alvo, um trabalho sem foco e direção, um percalço na ascensão do Megadeth à nata do metal mundial, mas por ser tão óbvio para mim ser esse o cume da carreira deles e um dos clássicos indiscutíveis do rock mundial e, ao mesmo tempo, tão execrado pela massa cabeça de metal. É como se diz, gosto não se discute, se lamenta (ou se aprimora).
Existe, ainda, outro motivo (e mais importante) para colocá-lo de fora da listagem. Veja bem, se fiz uma lista onde a temática básica era a obsessão de alguém por uma banda, estar excluído da lista significa não compartilhar da mesma dor de cotovelo. Mas veja bem (veja bem, novamente), simplesmente integrar ou não a lista não faz do disco melhor ou pior. Várias ou quase todas as bandas de qualquer estilo se espelham em algo para criar suas músicas, quer musicalmente, quer conceitualmente. O próprio Megadeth compôs albuns fantásticos nessa veia de ressentimento, o combustível do motor do Dave Mustaine. Além do mais, nunca disse que tentava plagiar o Metallica, nem mesmo fosse desprovido de talento. Muito pelo contrário. Como plagiar o que ele mesmo criou? Vamos acusar agora também o Kai Hansen, mestre em se auto-repetir?

Diferente do orgulho da Alemanha, o recalque de Los Angeles sempre soube se reinventar. Expeculando um pouco, ele devia ser ainda impulsionado pelo gênio (de alguém genioso, não genial) do Lars Ulrich, provavelmente quem empurrava o Metallica na direção transgressora que traçava (como alguém tão limitado tecnicamente poderia continuar numa banda tão talentosa e promissora, não fosse por uma personalidade influente?). Ainda assim, mesmo em outra banda, encontrava a inspiração necessária à renovação de seu som.
Acontece que o So Far… é um caso em especial. Nenhum album do Megadeth emana um descompromisso tão pungente como ele. Não há como se traçar um paralelo com o Metallica aqui, pois o Metallica nunca tinha ido por essas águas. O So Far… não segue nenhum tipo de caminho claro, nenhuma fórmula (como o Metallica fazia, de músicas longas, influências claras de rock progressivo, de suítes). Talvez siga conscientemente a fórmula de não ter fórmulas, mas, seja por uma via intencional ou não, é extremamente fiel ao título: Até agora, legal… E daí?
Sem Mustaine.
E daí que é o "So What?" que navega o disco. É uma chutação de balde sem precedentes no metal. Tirando o cover, não há refrões em seis das sete músicas. Abre com uma música instrumental (não é uma introdução, é uma música mesmo), não há uma estrutura básica que as músicas sigam, certas passagens tem três guitarras, algo nada comum no heavy metal, solos e licks de guitarras em momentos bastante improváveis e avança por diversas vertentes do gênero musical em questão, desenvolvendo estilos diferentes de thrash, mais em conformidade com o power metal ou com mais swing, mais na veia do heavy tradicional, e até do rock and roll, aprimorando a instrumentação mais técnica, sua marca registrada. Vamos música a música, parágrafo a parágrafo.
Into the Lungs of Hell (instrumental): Abrir um disco com uma música instrumental é algo no mínimo descompromissado. A Abertura é sempre marcante, ou tenta ser, com um refrão contagiante, um riff memorável, e por aí vai. Ou então se faz uma introduçãozinha só pra não arregaçar de cara, dar uma lubrificada antes ou só pra criar um climinha. Mas o Megadeth (Medageth para alguns) não, eles optaram por gravar uma música intrumental mesmo, com início, meio e fim. E que música! Violão e guitarra distorcida aos quais se junta uma marcha pra, em seguida, começar o bumbo duplo e o solo. Depois é só pegar o primeiro acorde do riff e estendê-lo até começar o solo neo-classico tradicional de metal e seguir o caminho até o fim, dando ao final uma subidinha de tom e encurtando o tempo da frase até acabar.
Set the World Afire: Engraçado é que ela tem muito mais cara de abertura de disco que a instrumental. Pode-se entender então que antes era só um prólogo e que é aqui que começa a estória de fato. Tem até uma introduçãozinha de um grupo vocal dos anos 30-60, The Ink Spots (famosos quem?), "I don´t wan´t to set the World on Fire", que descamba numa explosão e num frenesi de guitarras. O mais curioso é ela desembocar num rufar de tambores, que dá num dos riffs de thrash técnicos do Dave Mustaine e, de repente, se desanda num que o Judas Priest poderia gravar. Eis que, sem mais nem menos, volta o thrash caraterístico da banda e os riffs de harmonia sem melodia que ele e o James Hetfield popularizaram. E então se começa o que poderia ser um refrão, fosse repetido alguma vez, acompanhado pelas palhetadas rápidas estilo whiplash, palhetadas e sobe o tom, palhetadas e desce o tom e a volta do Judas Priest junto a um solinho mega estridente. Depois, mais riffs harmônicos, mais guitarras estridentes e mais solos.
Formação clássica
Anarchy in the UK: Covenhamos, é dispensável mesmo. Tenho que concordar com todos os críticos que um cover do Sex Pistols não deveria estar aqui. Mas, convenhamos também, ficou boa. Se não fosse um disco de thrash metal estaria perfeita. Tudo um problema de contexto, diria. No entanto, não tenho como deixar de pensar que faz algum sentido ela estar aqui. Esse é, sem sombra de dúvidas, um disco anárquico, mais que qualquer outro já gravado por uma banda de metal. Ele não tem estrutura, já disse, não tem refrões, é cheio de intervenções de guitarra, mudanças de tempo e efeitos, distorções e timbres. Anarquia no thrash metal.
Mary Jane: Minha preferida. É outra mal localizada. Uma música climática, que depende muito da melodia dos solos (sejam com ou sem distorção), entre faixas rápidas, não tem muita ajuda para dar certo. Mesmo assim funciona perfeitamente. Acho monumental a maneira como a música se constrói, de um tom de epílogo que vai descendo, um solinho que encontra a voz do Dave Mustaine fazendo canto psicodélico, um riffzinho trotante ao lado da guitarra limpa fazendo clima, até que a música volta a ganhar tensão com a reTOMada da melodia, que reconquista o que o início perdeu, voltando a ceder e cair para se retomar novamente e cair de novo. Esses solos que ganham energia e a perdem se mantém com o riff trotante até a música se partir numa passagem mais rápida, com preparação de porrada, cavalgadas, quebras de tempo surreais e finalizar mais acelerada ainda. Detalhe ser uma das poucas músicas de heavy metal (pelo que me lembro) a falar sobre maconha.
Lier, Lier, Lier!!!
502: Sobre a tendência suicida do compositor, guitarrista e galinácio de dirigir bêbado. A mais direta daqui, palhetadas retas, riffs à la power metal (parecidos com os que o forbidden viria a fazer), solos ultra-climáticos (em quem o Kirk Hammett provavelmente se inspirou) e uma passagem mega-vanguardista (ao menos pro thrash), quando a música virtualmente para pro som de alguém entrando num carro e dirigindo até tê-lo devidamente porrado, muitos não acham muita graça. Vai entender. Termina com um solo de bateria e barulhos de guitarra.
In my Darkest Hour: O grande clássico do So Far… e do Megadeth. Uma balada pesada e contagiante, presença garantida nos shows. Minha outra preferida, tão boa ou melhor que a Mary Jane. Nem vou falar muito dela porque não há muito do que falar. Bonita, empolgante, épica, foi descaradamente plagiada por uma música do Cardinal Sin, Probe with a Quest. Detalhe a música ter sido escrita após o Dave Mustaine saber sobre a morte de seu ex-companheiro de Metallica, Cliff Burton.
Liar: Mais uma escrita sobre um ex-companheiro, nesse caso a letra. Seu compatriota de banda, Chris Poland, que estaria vendendo equipamentos de som para comprar drogas, foi expulso, mas ainda permaneceu no albúm em forma de música. Quase tão direta quanto a 502, também tem um quase refrão assim como a Set te World Afire (se o Lier!, Lier!, Lier! se repetisse em outra passagem).
Hook in Mouth: A que o baixo do David Ellefson mais aparece. Aos riffs, aqui também à la Judas Priest, se alternam as palhetadas rápidas, os solos neoclássicos e, o mais incrível, um solo que é quase base, ao mesmo tempo. Essa é a única com refrão, que, por sinal, é memorável, assim como todo o vocal, e, por conta disso, é a que mais se destaca pela voz. Realmente é absurdamente empolgante cantar junto essa música em especial (junto com a In my Darkest Hour, que é O clássico).
É por isso e tudo mais que considero essa a obra prima do Megadeth. Ela é transgressora demais do thrash, é descontrolada demais. De repente a crítica geralizada é por conta disso, por uma banda seminal do estilo tê-lo subvertido por demais. O Metallica expandia seu som, assim como o Megadeth, mas sem perder sua característica e, quando o fizeram, foi em busca de algo mais pop, mais acessível, o que não é o caso com o So Far… É possível que outra banda fosse mais bem recebida ao tentar tal empreitada, não uma que havia acabado de alargar o estilo.
Ahh! Então foi por isso que o Mustaine saiu do Metallica!
Falando especificamente do relançamento remasterizado de 2004, a produção especialmente tosca do So Far, So Good… teve uma melhora absurda, rídicula de mais cristalina. E isso logo de cara. A Faixa instrumental tem o violão do riff inicial colocado em bastante destaque sem que isso prejudique nenhum dos outros instrumentos e, pasmem, tem uma cornetinha que nunca tinha percebido. Fantástico! O Mustaine é ainda mais aloprado do que imaginava. A bateria (os bumbos duplos especialmente) desobstrui o caminho para o baixo e as guitarras se sobressairem um pouco mais (os agudos ficam muito mais claros e evidentes e o baixo muda muito mais claramente a melodia das bases de guitarra) e, de um modo geral, fica tudo com um tom mais coeso e mais bem equalizado. Só para se ter uma idéia, é como quem tem miopia usar óculos pela primeira vez. Dá pra ver o contorno dos sons. As passagens mais confusas, como a enxurrada de guitarras da Set the World Afire ou a explosão do início ficam muita mais contidas, sem perder peso, e as intervenções dos solos continuam identificáveis mesmo nas voltas dos riffs.
Não que a voz aqui seja algo pra ser muito apreciado, mas os efeitos ficam eles também mais marcados. A consensualmente mal vista Mary Jane tem as intervenções vocálicas do ganso rouco mais bem desenhadas (algumas dispensáveis, é verdade, ponto ruim para a nova produção), mas, em compensação, guitarras bases e solos se digladiam bem menos, entrando em acordo mútuo. A também mal vista 502 talvez passe a ser um mau olhado mesmo, já que a base está bem mais destacada e, e a guitarra power metal da passagem “driving fast makes me feel good …” bem mais… não sei o que bem mais, além de realçar o sumiço da música quando o Dave Mustaine entra no carro e o caos de sua volta quando da batida. Em contrapartida, os bumbos estão no lugar exato que deveriam estar, tanto aqui quanto na hook in mouth. Já os bumbos duplos ficam na média do metal dos anos oitenta, um problema inevitavelmente comum na época, o que já é um avanço.
Guitar Hero…
Uma novidade aqui é o início da In my Darkest Hour, que tem umas notas de violão que inexistiam no lançamento original. Alguns vocais dobrados em terças (ou quintas, como vou saber?) ficam também mais claros, somados ao realce dos efeitos tanto neles quanto nas guitarras. Hook in mouth, além dos bumbos menos toscos está com o ataque do baixo mais evidente, com o timbre metálico bem mais metálico e um eco do vocal mais óbvio. Já a Lier tem seu corinho Lier, lier, lier! beneficiado pela remasterização e nada muito mais digno de nota. E a Anarchy in the UK não teria muito o que ganhar.
… ou campeão de judô?
Fico pensando aqui se o problema do disco não estaria na ordem das músicas. O cover do Sex Pistols ficar na faixa três numa banda de thrash? Não estaria mais bem localizada como uma faixa bônus? É um peixe fora dágua. Mary Jane, por ser mais lenta e mais climática não seria melhor usada fechando o álbum? Minha escolha para a ordem das músicas seria essa: Into the Lungs of Hell, Set the World Afire, In my Darkest Hour, 502, Liar, Hook in Mouth, Mary Jane e Anarchy in the UK (faixa bônus). Mas aí esse post começa a virar mais punheta do que já está.