Mas porra, vocês diriam, falar sobre a capa deste disco? Logo a capa? Deste disco? Se ter na mão um dos albuns mais seminais da história do rock, considerado por muitos o melhor fruto de todo o movimento do rock progressivo e falar sobre a capa? Por que não sobre os riffs? O guitarrista é o Robert Fripp. Por que não sobre os vocais? O vocalista é o Greg Lake, posteriormente famoso por um tal de Emerson, Lake and Palmer. Por que não falar do Ian Mcdonald, o verdadeiro astro daqui, que toca flauta, clarinete, teclado, mellotron, saxofone e etc? E as influências jazzísticas que o King Crimson trazia pro rock? E como Fripp e cia alargavam as fronteiras da música popular? Por que a capa?
Por que a capa, com uma banda tão foda?
Porque da capa é o que menos se fala. Todo o resto já é mais que sacramentado, mais que reconhecido. Não quero chover no molhado para falar o quão foda é o In the Court of the Crimson King, nem na revolução musical que trazia o lançamento. Pelo menos não agora.
O que de cara impressiona qualquer um é a crueza do negócio. Uma banda tão elaborada e complexa como o King Crimson, com temas esotéricos, místicos e espaciais tão frequentes, e que se leva tão a sério quanto uma banda pode levar, optar por um desenho tão tosco e tão direto pra ilustrar logo o debú? Não seria melhor colocar um trono, com uma coroa e um cetro de lado? Ou um rei imponente, com uma capa maneira?
Mas afora a crueza, o interessante é ela retratar exclusivamente a expressão de terror e desespero do sujeito. E o que tem de tão foda em se captar a expressão do sujeito? Bem, respondendo com outra pergunta, o que estaria causando essa expressão de terror e desespero? O que estaria ele vendo pra causar tamanho horror? A Bruxa de Blair? A mula sem cabeça? Estaria ele ouvindo Rhapsody (of Fire)?
Ele olha pra si mesmo, isso que é tão foda. Ele é a faixa de abertura do disco, ele é o 21st Century Schizoid Man, vendo seu próprio surto. A cabeça se abrindo para o universo, ou seu universo o deixando para o mundo, como queiram, ele, de toda maneira, se perde de si mesmo, e isso é o que é tão foda.
É uma arte meio grotesca, até grosseira, diria, mas se trata de uma banda de rock, com guitarras distorcidas, que, por sinal, é das mais pesadas de todo o rock progressivo. Nada mais de acordo que uma capa que retrate um pouco isso.
Pra falar a verdade, isso acaba me remetendo um pouco ao ao vivo (isso ficou meio estranho) do Bruce Dickinson, o Scream for me Brazil, que, diz o vocalista, trocou uma capa que seria inspirada no grito do Edvard Munch (ao lado) pela piranha (logo abaixo).
O maneiro é notar que a capa do King Crimson realmente lembra o grito, uma mera coincidência talvez. Mas se, por ventura, rolou uma inspiração no pintor norueguês, provavelmente algo semelhante aconteceu com uma cena desse filme que já fiz referência aqui:
Pois então, interlúdios à parte, a arte da estréia do Rei Escarlate não se resume a capa propriamente dita, mas a arte gráfica como um todo, que envelopa a musica. Pois, se o disco abre com o homem esquizoide do século 21, fecha com o Rei. Faltaria, portanto, uma imagem do mesmo. Faltaria, pois há sim um retrato seu:
Essa ilustração, que é obviamente da parte interna do encarte, seria a dele próprio, do King Crimson em pessoa, em contradição consigo mesmo, com um sorriso na boca e tristeza nos olhos. Para notar com mais clareza, basta tampar um dos dois e ver o outro.
A capa foi criada por um tal de Barry Godber, um programador em computação, e esse aparentemente é seu único desenho. O artista amador morreu em fevereiro de 1970, de um ataque no coração. Mas deixemos o Robert Fripp falar um pouco:
"Barry Godber was not a painter but a computer programmer. That painting was the only one he ever did. He was a friend of Peter Sinfield, and died in 1970 of a heart attack at age 24. Peter brought this painting in and the band loved it. I recently recovered the original from EG's offices because they kept it exposed to bright light, at the risk of ruining it, so I ended up removing it. The face on the outside is the Schizoid Man, and on the inside it's the Crimson King. If you cover the smiling face, the eyes reveal an incredible sadness. What can one add? It reflects the music..."
É, basicamente ele diz tudo o que eu falei nesse post, excetuando a enrolação e as comparações. Essa declaração faz parte de uma entrevista para a revista francesa Rock & Folk e, pra quem quiser conferí-la, há uma tradução da mesma aqui.
Disco foda, banda foda, músicos fodas, encarte foda, vou dormir ouvindo!


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