
Parece obra do destino esse blog ter surgido logo que voltava a ouvir esse clássico do KISS. Isso porque durante muito tempo fui um fã desmedido da banda e é até um pouco surreal pensar estar falando exatamente deles nesse primeiro post. Eu, que já tive todos os seus álbuns, que já tive várias revistas e vídeos, que já tive inclusive o tosquíssimo “Kiss meets the Phantom of the Park” (uma espécie de filme musical dos Power Rangers, de fazer até o Rhapsody - agora Rhapsody of Fire – corar de vergonha), enfim, toda a sorte de bugigangas compradas com todo o fervor que apenas um idiota seria capaz de endereçar, me proponho a falar a sério sobre eles. Acontece que, à parte toda a máquina capitalista que é o KISS e entorno da qual orbita, existe – ou já existiu - uma banda de verdade e isso se expressa atomicamente nesse segundo disquinho.
Lançado em 74 – mesmo ano de seu primeiro lançamento, o insuperável Kiss, o disco -, faz jus a todo o escarcéu que viria a se criar ao redor da banda. Embora, obviamente, não possua tantos clássicos quanto o anterior (Strutter, Firehouse, Cold Gin, Deuce, etc.), o Hotter than Hell segue a mesma linha “Heavy Metal Beatles”, simples e pesado, só que se aventurando mais no lado pesado... e permanecendo tão simples e direto quanto o outro – e todos os outros -. É surpreendente pensar numa música como “Parasite” ser lançada à época, quando se podia contar nos dedos quantos realmente faziam algo verdadeiramente pesado. Não à toa, muita gente se refere a eles, até hoje, como Metal, afinal, está tudo lá: a formação clássica guitarra, guitarra, baixo e bateria, riffs a rodo, peso, guitarras dobradas e, é claro, a maquiagem.
O grande problema do KISS, por incrível que pareça, é ter seu talento mascarado pelas maquiagens e pela indústria que gira ao seu redor. Queiram, ou não, o KISS estava fadado a ser uma banda de sucesso que jamais seria realmente levada a sério. Quatro marmanjos de maquiagem pesada, incorporando personagens quase-saídos de estórias de super-heróis, com músicas simples e grudentas, não são, não seriam e nem poderiam ser o padrão art-rock/prog-rock vigente, de músicas de 20 minutos, discos conceituais, letras etéreas e tudo o mais do pacote. Daí apenas, e infelizmente, os solos intermináveis. Especialmente os do Peter Criss (ai Jesus!!!). Mas, com certeza, se encaixavam numa platéia jovem ou adolescente, e até infantil, com seus shows pirotécnicos e teatrais, por serem maus demais para os pais e legais demais para o público. Eram o casamento perfeito de heróis e vilões. E possuíam o potencial a mais, aquele detalhe peculiar que nenhuma outra banda no mundo poderia ter: ser a maior banda de Rock saída dos Estados Unidos. Quem mais poderia se candidatar ao posto? O Van-Halen? O Aerosmith? Foram grandes, sem dúvida, mas não o suficiente para os vôos comerciais pretendidos pelo KISS e pelo gênio empresarial da dupla dinâmica Paul Stanley e Gene Simmons. O KISS é para o Rock and Roll o que o Metallica é para o Heavy Metal.
De qualquer forma, por detrás do teatro, por de baixo da propaganda, para além dos interesses interesseiros, da demanda por dinheiro e da puta que pariu, existe uma banda foda pra caralho e uma música que bebe no que é a essência do rock and roll: a diversão, o “Rock and Roll all nite and party every Day”. Se o que se procura é música boa, rock de primeira, se o que interessa são riffs, melodias imediatamente grudentas ou solos de guitarra geniais, é certo não se perder a viagem ao vir parar aqui. Se for essa a busca, impossível ouvir e não ficar imediatamente fascinado pelo som que se ouve. Pode-se até argumentar a música ser derivativa, uma fórmula arquitetada, mas esse não é o ponto. Há um talento impar na arte roqueira do KISS e algo autenticamente autêntico na produção em série da banda. Ainda mais nessa fase áurea. Foram seis discos e dois ao vivo em pouco mais de três anos. O quarteto Stanley, Simmons, Frehley e Criss jamais voltaria a ser tão prolífico.
Agora, o disco: sem firulas, sem introdução, sem barulhinhos ou o que quer que seja, a primeira coisa que se escuta é a indicação perfeita do que será ouvido daí em diante. As primeiras notas de guitarra ditam o tom da coisa toda. “Got to Choose” é dessas músicas inigualáveis: um riff memorável, variado na medida exata, dobrado no momento certo, o solo de guitarra inspiradíssimo, o baixo quase-subliminar apenas suprindo o que falta a guitarra, o vocal perfeito, o refrão falseteado..., até o baterista, por incrível que pareça, manda bem; tudo o que está presente nas faixas seguintes. Incrível pensar como simplesmente dobrar as guitarras na repetição de um riff de refrão pode fazer a música ganhar um tom quase-épico. Fora uns licks-sirenes aqui e ali. É um início perfeito. E na seqüência, a já referida, e talvez a música mais pesada do KISS, “Parasite”. A guitarra simples e direta, o vocal meio-cantado meio-urrado do Gene Simmons, o solo totalmente metálico e a bateria tosca e sem inspiração se encaixam perfeitamente, ainda que em alguns momentos realmente o Peter Criss tosqueie demais. É tudo meio seco e poderia passar tranquilamente por uma música de alguma banda de metal dos anos oitenta. Em seguida, com a letra mais absurda de todos os tempos, Goin´ Blind: “You´re so young and so much different than I, I´m ninety-three you are sixteeeeeeeeeeen, can´t you see I´m goin´ blind”. E mais solos de primeira. Além dessas, “Hotter than Hell”, um clássico que batizou o aposto da banda “The hottest band in the world” e “Let me go, Rock ´n Roll”, a primeira tentativa – frustrada - de criar um hino próprio, fecham o lado A.
Já no outro lado, bem mais obscuro e desconhecido, de cara duas surpresas: “All the way” e “Mainline”, intercaladas pela “Watchin´you”. Essas duas uma espécie de rockzinho meio retrô para a época, a segunda estrelada pelo tosco da bateria que manda bem bem nos vocais e que definitivamente rouba o lado e a primeira com um refrão memorável cantado pelo que ainda aprenderia a cantar, Gene Simmons. No interlúdio mais um clássico, também cantada pelo demônio do KISS, com mais guitarras dobradas. Além delas, uma versão proto de um novo clássico – essa é a vantagem de se escrever sobre algo feito a mais de 20 anos -, imortalizado no acústico para MTV: “Comin´Home” e para fechar, um riff à la Black Sabbath, bem sombrio, lento e sinistro, para o seu próprio autor emprestar à voz do Peter Criss: “Strange ways”.
Um fato interessante no KISS é o de todos - assim como nos Beatles -, vez ou outra, cantarem e se alternarem numa mesma música. Aqui não é diferente, embora o Ace Frehley fique de fora, fato que não é perda alguma, contentando-se em solar e riffar apenas - o que faz melhor -. É um disco dominado pelas guitarras, que fazem um excelente trabalho. Todos os solos – repito, todos os solos – são um show à parte e parece não haver nenhuma nota desperdiçada. Paul Stanley é o principal compositor, seguido por apenas três músicas do Gene Simmons e mais três do Ace Frehley, sendo uma em parceria . Já sobre as letras..., pra que falar sobre o lirismo do KISS? Mulheres, festas, pseudo-terror, amores superficiais, desventuranças da velhice, à profundidade de uma piscina de 1000 litros.
Antes de terminar, é inevitável não falar - mal - mais uma vez do Peter Criss (Víxi!). É reincidente a impressão de faltarem pratos, uma boa virada ou peso. Na verdade, difícil é entender como um baterista tão limitado pudesse ter entrado numa banda como o KISS? Não que os outros membros sejam exímios instrumentistas, detentores de uma técnica perfeita, dotados de um virtuosismo jazzístico ou death-metálico extremo. Mas comparado a eles, o que se vê é muito pouca criatividade e capacidade, que, de evidente, torna-se gritante ao vivo. Sai-se muito pouco da mera competência, do feijão com arroz. Talvez tenha sido o único a se prestar a usar uma maquiagem de gatinho. Mas não se enganem, na maior parte do tempo tudo funciona bem. Marca o tempo, faz uma viradinha, volta pro tempo. Cria uns negócios, inventa uns lances, varia aqui, varia ali. Aliás, como um baterista de estúdio ele é mais que o suficiente. Mas, de vez em quando, tá lá rolando aquele riff bizarro, o solinho animal, e lá vai o Catman “tan-tan tan-tan-tan” no bumbo, ou aquele prato mais insosso do mundo. “Agora Peter, aquela virada que a gente ensaiou”: “Tuntuntuntuntuntuntuntuntun”, quadradão. Em alguns momentos é de dar raiva. Acho que até eu, com tendinite nos dois braços, um ombro e um joelho fudidos, lordoso e escolioso, e sem treino em artes batuqueiras, faria melhor. Mas é isso, cada um tem seu Judas.
Concluindo, no final das contas esse é um dos melhores albuns já lançados por eles e um dos meus preferidos. O que não falta são riffs e solos. São um prato cheio. Mas produção bem poderia ser um pouco melhor. Menos abafada e valorizar um pouco mais a bateria – quem sabe o objetivo não era deixar mesmo ela de lado? – não faria mal algum. Até a voz perde um pouco. E as guitarras mais graves por vezes parecem um pouco distantes, como se se estivesse ouvindo o som da sala ao lado. Porém, após tanto tempo e tantas audições isso parece dar um charme especial e criar uma aura específica. Extremamente funcional.