Nos quadrinhos de super herói atuais, existe um grupo de artistas que tem uma grande influência do fotorealismo, escola de arte dos anos 60 e 70 que propunha a realização de obras feitas a partir de fotografias. O quadro não existe sem uma foto, que serve como imagem-base mesmo para a pintura.
Nas revistinhas, os artistas que se valem dessa proposta usam como modelos para os personagens e ambientações fotos de pessoas e lugares, fazendo uma 'versão desenhada' ou 'retrabalhada' dessas imagens, o que dá uma aparência mais real e naturalista para os desenhos (ao contrário da escola tradicional dos super-heróis, capitaneada pelo desenhista/escritor Jack Kirby, que procurava dar uma dimensão grandiosa à arte através de traços e enquadramentos não-realistas).
Artistas como Alex Ross (provavelmente o inspirador de toda essa tendência), Greg Land, Salvador Larroca, e os brasileiros Luke Ross e Mike Deodato Jr. são alguns exemplos de gente que já usou esse tipo de influência em seus trabalhos. Mais recentemente, o canadense Dave Sim, criador do Cerebus (a revista em quadrinhos com mais edições em língua inglesa de todos os tempos), lançou a série Glamourpuss, que retrata o mundo da moda através de arte fotorealista.
Muitos críticos de quadrinhos atacam essa proposta, argumentando que ela é pouco mais que um atalho para facilitar a vida dos artistas, já que eles não têm o trabalho de 'criar' os desenhos, mas sim 'recriá-los' ou 'adaptá-los'. Muitas vezes, o que se vê na revista não é nem desenhado propriamente, mas sim uma imagem alterada no computador a partir das fotos em programas específicos.
Por isso, é interessante ler o ensaio do artista Ryan Kelly sobre o processo de criação da revista Local (cuja edição #3 foi tema de um post do Dotto), que tem como base a proposta de ambientar cada número em uma cidade diferente dos Estados Unidos.
O mais legal da idéia do cara é que, apesar de não abrir mão das fotos como referência para a arte (já que uma das maiores preocupações dele era ser fiel às cidades que ele desenhava), o objetivo era partir da história em primeiro lugar. Ou seja, apesar de as fotos serem uma parte intrínseca do processo de criação da revista (nesse caso, apenas na parte dos cenários, não dos personagens), ela está subordinada às necessidades dos personagens e da narrativa.
Exemplo disso é o fato de ele dizer que, quando não tinha uma foto na escala ou enquadramento que ele pretendia para contar a história, ele se impunha a obrigação de desenhar o quadro do zero, usando as fotos como referência e não como base para o desenho.
É um caminho interessante, porque assume totalmente o papel das imagens de referência, mas reforça que o trabalho do artista não pode se subordinar ao material que ele toma de ponto de partida.
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