terça-feira, 28 de outubro de 2008

Uma vez tosco... sempre tosco

Todo mundo sabe que o Manowar é a banda mais true metal do planeta. Tão true que os caras não têm vergonha de lançar CDs com capas em que aparecem vestidos de pantufas, com espadas nas mãos, corpos lustrados com óleos e coisas ridículas do gênero.

Os caras se dizem tão metal, mas tão metal que cantam músicas com frases como: "if you're not into metal, you are not my friend"; ou "it's more than our religion, it's the only way to live"; "we don't attract whimps, 'cause we're too loud"; ou ainda "cause I need metal in my life, just like an eagle needs to fly". Pura poesia, afinal, é a banda que lançou o disco se autodenominando Kings of metal.

Por essas e outras, é difícil imaginar os caras da banda dissociados da imagem ultratruemetal que eles criaram.

Bom, agora isso já não é mais tão difícil assim:

Acima: o vocalista Eric Adams e o baixista e líder Joey DeMaio na sua fase descolada 'eu uso calça boca-de-sino mesmo, e daí?'. A foto aparentemente foi tirada em 1976, quando os dois integravam a banda The Looks, sobre a qual me foi impossível achar informações na internet.

Bem que eles podiam reativar a banda, calçar seus sapatos plataforma e lançar o álbum Kings of disco. Pelo menos eles iam demonstrar um pouco de senso de humor.

Caralho, alguém devia imprimir essa foto e levar numa tarde de autógrafos da banda!

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Pelo retrovisor

Essa semana foi bem devagar, mas o atraso é razoavelmente justificável pelo massacre supremo que foi o show do Mayhem, na sexta feira, mais trabalho no fim de semana e desculpas afins.


Música:

Black Sabbath - Never say die (1978)

Uma continuação bastante natural do seu antecessor, Never say die é mais uma demonstração do Sabbath tentando ser claramente comercial, com pouca coisa que preste como resultado. O disco até que abre bem, com a empolgante faixa título (uma música que tem bastante a ver com aquela mistura de metal e hard rock que se popularizou nas rádios no início dos anos 80) e a decente Johnny Blade. A partir daí, pouca coisa de valor sobra, como a bela balada Air dance (alguém faz um cover dessa música, pelo amor de deus!). As faixas mais descaradamente 'pops' são também as mais dispensáveis e risíveis, como a pentelha Over to you e a péssima Swinging the chain, com vocais do baterista Bill Ward. A falta de foco da banda é evidente, os riffs do Tony Iommi são pouco inspirados e, acima de tudo, o disco evidencia a incompatibilidade da voz do Ozzy com o som que grupo fazia na época. Não à toa, esse seria seu último disco com o Sabbath até a reunião falcatrua já no finzinho dos anos 90.


Dio - Lock up the wolves (1990):

Se desde o debú Holy diver o Dio se manteve fazendo exatamente o mesmo tipo de som, com um mínimo de inspiração e vigor para manter seu nome em evidência, em Lock up the wolves o baixinho mostra definitivamente que sua inspiração se esgotou de vez. A fórmula aqui é a mesma: uma mistura de metal (com um que de power metal) e hard rock (com muitos tecladinhos safados), musiquinha rápida de abertura e faixas mais cadenciadas pontuando o disco. Mesmo com algumas mudanças de peso na formação, a banda do cara ainda é boa (uma curiosidade: o Jens Johansson do Stratovarius é o tecladista do disco), mas não consegue romper a barreira de desinteresse e preguiça das composições. Fica praticamente impossível apontar algum destaque além do vozeirão do Dio, que se mantém poderoso e único, mas se for o caso de ouvir alguma coisa do álbum, a dobradinha de abertura Wild one e Born on the sun até que passa por divertida para um otimista. Caso contrário, Lock up the wolves é um disco fadado a juntar poeira nas estantes de CDs até mesmo dos grandes adoradores de Ronnie James Dio.


Subterranean Masquerade - Temporary psychotic state (2004):

O EP de estréia do grupo americano é uma excelente introdução ao som da banda. Aqui vemos um Subterranean Masquerade um pouco mais contido e menos experimental, mesmo que a base da sonoridade da banda já esteja claramente desenhada. São apenas duas músicas de títulos e durações igualmente longas (o disco tem quase dezoito minutos), mas as faixas constróem perfeitamente uma atmosfera dramática crescente que atinge seu ápice no final. O disco serve também como primeira parte de uma suposta trilogia envolvendo o personagem X, o que faz bastante sentido, já que o clima do EP combina perfeitamente com as composições do LP seguinte. O som dos caras é um metal essencialmente progressivo, ainda que não tenha nada a ver com o que se pensa sobre o gênero de uma forma mais ampla (apesar de ter lá suas ligações com o, digamos, neoprogressivo pós-extremo de bandas como Opeth e Green Carnation), misturando vocais limpos e guturais, passagens acústicas e pesadas, metal e não-metal, e um violino quase onipresente forjando um som absolutamente ímpar. Fácil, fácil, uma das bandas mais promissoras da atualidade.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Parem as rotativas!

Outro dia, eu escrevi sobre a safra de shows em 2008, que, mesmo desconsiderando os eventos exclusivamente paulistas, está sendo bem generosa. Por outro lado, nota-se a predominância de repetecos clássicos (e não-tão-clássicos, mas ainda assim repetecos) na lista.

Pois bem.

Tô eu na internet esses dias e, de repente, como quem não quer nada, eu descubro o seguinte: essa sexta agora tem um show do Mayhem no Rio.

Repetindo: essa sexta agora, dia 24, tem um show do Mayhem no Rio.

Sim, esse Mayhem:

O mesmo Mayhem das histórias mais bizarras de bandas de metal (e provavelmente de outros gêneros musicais também) de todos os tempos, cabeças de bode cortadas e arremessadas no público resultando em traumatismos cranianos, tiros na própria cabeça, assassinatos, igrejas históricas queimadas. Entre outras coisas bacaninhas e simpáticas.

O mesmo Mayhem de Necrobutcher e Hellhammer (cara, eu vou ver o Hellhammer tocando ao vivo!). Pra não falar no suicidado Dead (há!), no assassinado Euronymous. Ou no encarcerado Count Grishnackh.

O mesmo Mayhem que lançou o infame 'CD do Gerson Brenner' (não posto a capa aqui por respeito à sensibilidade alheia, mas quem quiser clicar fique à vontade).

Tudo bem, tecnicamente o show não é no Rio. É em Caxias. E Caxias é longe pracacete.

Mas, cara, foda-se!, é Mayhem. Eu vou ver um show do Mayhem. E o ingresso custa 30 reais. 30 reais!

Caralho, meus amigos, essa será a desgraça no ano, quiçá da vida.

Mais notícias em breve... se eu sobreviver.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

A frase mais sincera do ano

Todo mundo já deve estar careca que nem o Angus Young de saber que está pra sair o novo CD de estúdio do AC/DC, Black ice. Oito anos depois do último lançamento, a banda australiana vai voltar com mais um disco rechado de músicas idênticas a todas as outras que eles já gravaram!

Mas não sou eu (ou o resto dos nerds que perdem seu tempo com bobagens na internet) que estou falando não.

Da boca do guitarrista-careca e fundador (em tradução livre):

"Tudo que você precisa saber sobre o AC/DC é isso: nós paramos de crescer musicalmente quando tínhamos dezessete anos".

Bom, ninguém pode dizer que o cara não é sincero. E tem mais:

"Quando você tem dezessete anos, você escreve músicas e espera que elas tenham apelo pras outras pessoas de dezessete anos. E a gente ainda escreve músicas pras pessoas de dezessete anos".

(o cara tem 53 anos e é careca)

Bom, não é à toa que ele se veste como um colegial nos shows da banda!

Pra quem interessar, a matéria toda está aqui. Incluindo um videozinho com a clássica presepada de chamar AC/DC uma banda de heavy metal.

Um showzinho dos caras não era nada mal, hein...

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

It's alive! (volume 2)

A segunda edição da revista em quadrinhos que eu fiz com o Alvaro (amigo nerd) está online!

Agora com menos ação, mas em compensação com muito mais falação e desenvolvimento de personagens!

E dessa vez, a citação do Frankenstein no título do post até faz algum sentido, já que a edição foi desenhada por três artistas diferentes.

Mas não tem desculpa, vocês têm que ler. É de graça, porra!

Comentários (mesmo aqueles cheios de falsidade) serão bem-vindos. E mandem pros amigos, inimigos, conhecidos e desconhecidos, precisamos de acessos pra ganharmos mais dinheiro com revistas em quadrinhos, o que é algo tão genial quando impensável.

domingo, 19 de outubro de 2008

Pelo retrovisor

Ok, dessa vez sem atrasos!


Música:

Grip Inc. - Power of inner strength (1995):

Com sua saída do Slayer, o baterista Dave Lombardo formou, ao lado do guitarrista alemão Waldemar Sorychta e do vocalista inglês Gus Chambers, sua nova banda, o Grip Inc. O debú é o disco mais propriamente thrash da banda, com algumas músicas que têm lá sua semelhança com o Slayer, mas o lado pós-thrash/groove dos caras já ganha bastante espaço aqui. O CD abre com uma colagem de percussão, bem ao estilo de uma banda liderada por um baterista, depois emendando na dobradinha sensacional Savage seas (retribution) e Hostage to heaven. Apesar de o disco titubear em alguns momentos, a empolgação é mantida em um bom nível graças, em primeiro lugar, a belas composições como Ostracized e Guilty of innocence e, em segundo, à bateria do Dave Lombardo, que aqui demonstra um gás impressionante e rouba o show ainda mais do que fazia no Slayer. As contribuições do guitarrista (principal compositor da banda) e do vocalista (que traz uma bem-vinda energia punk pro som da banda) também são elementos essenciais para a personalidade do grupo. Power of inner strength é o mais feroz disco dos caras e o retrato de uma jovem banda entrando de sola na cena pós-thrash do meio dos anos 90.


Isis - Celestial (2000):

O álbum de estréia do Isis já aponta na direção do som que viria a consagrar a banda na cena sludge/pós-metal/pós-hardcore (há!), mas com composições menos melódicas e refinadas. O disco é pesado do início ao fim e, ao contrário de grande parte do catálogo da banda, se vale de elementos eletrônicos para criar sua ambientação sonora (tanto nas músicas propriamente ditas como nos interlúdios que permeiam o álbum). De qualquer jeito, os principais atributos do Isis já estão em plena demonstração no debú, como os vocais hardcore do líder Aaron Turner, as guitarras hiper-texturizadas e a bateria inacreditavelmente foda, a cargo do Aaron Harris. A influência do pós-rock no som dos caras ainda não era assim tão evidente nessa época, fazendo com que o disco penda mais para o lado sludge, em faixas esmagadoras como Celestial (the tower), Swarm reigns (down) e Gentle time. O peso constante pode causar a impressão de uma certa repetição e um efeito de esgotamento, mas é inegável que aqui o Isis já buscava sua identidade sonora, com uma boa dose de sucesso.


Led Zeppelin - Physical grafitti (1975):

Como quase todas as bandas dos anos 70, o Led Zeppelin se entregou com Physical graffiti à perigosa tentação do álbum duplo. O que é uma pena, porque, apesar de contar com boas músicas, o sexto disco dos caras se perde na duração exageradamente longa e nos inevitáveis fillers que aparecem nesse tipo de lançamento. Uma coletânea com os destaques do disco poderia figurar facilmente entre os melhores trabalhos da banda, incluindo pelo menos um clássico indiscutível (a épica Kashmir, com um dos riffs mais facilmente identificáveis do universo), bons exemplos dos hard blues dos caras, como a dobradinha de abertura Custard pie e The rover, além de coisas mais 'experimentais', tipo a instrumental acústica Bron-yr-aur e Down by the seaside. Infelizmente, as tradicionais músicas extra-longas como In my time of dying e In the light quebram o ritmo do disco e a grande quantidade de material desnecessário fazem da audição do LP do início ao fim uma tarefa ingrata.


Metallica - Death magnetic (2008):

Ver post gigante.


Overkill - Horrorscope (1991):

Como todas as bandas clássicas de thrash, no início dos anos 90 o Overkill estava em uma fase de transição no seu som (o que no caso também se refletiu em mudanças de formação). Trocando parte da sua velocidade por riffs mais pesados e arrastados, a banda acabou também perdendo um pouco da energia e empolgação características dos primeiros anos. A base do metal deles está intacta: riffs thrash aliados a uma sensibilidade quase power metal, vocais esganiçados acompanhados de corinhos na hora do refrão e músicas mais pesadas e sinistras. Horrorscope conta com grandes composições, como a faixa de abertura Coma, o hit Thanx for nothing, a pesadona New machine e a quase-balada (!!!) Solitude, mas a falta de energia faz com que várias faixas de bom potencial passem meio batidas. Por outro lado, o disco nunca cai num nível real de ruindade e, de certa forma, esse é o disco que consolida de fato o verdadeiro som do Overkill (desenvolvido com clareza no disco anterior), fazendo com que esse seja um disco crucial na trajetória do grupo novayorkino.


Livros:

La otra orilla (Julio Cortázar, 1945):

Primeiro livro de contos do argentino Julio Cortázar, La otra orilla é uma compilação de relatos do escritor, feitos no período entre 1937 e 1945. O largo espaço de tempo em que os treze contos (organizados em três 'capítulos') foram escritos já dá a dimensão irregular e dispersa que os textos têm (o próprio livro começa com uma espécie de disclaimer do autor, que justifica o agrupamento a partir da instatisfação que os contos causavam nele e a subseqüente vontade de escrever algo melhor). Os textos aqui ainda estão longe de representar a genialidade lietrária do Cortázar, mas é inegável a força de contos como Bruja, Distante espejo, Los limpiadores de estrellas (genial) e o meio afetado, mas belo Breve curso de oceanografía. Grande parte dos contos já passeia pelo mundo da literatura fantástica, gênero com o qual o autor se relacionou ao longo de toda sua carreira, em particular nos relatos curtos (se bem que aqui estão ligados a esse universo de forma mais explícita e menos sutil). Longe de ser o melhor exemplo da literatura cortazariana, La otra orilla é, ainda assim, um bom livro pra se entender as origens lietrárias do escritor argentino.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Sessão dessa pra melhor: Gus Chambers

O Grip Inc. foi uma das bandas mais interessantes surgidas nos anos 90. Formado após a saída do baterista Dave Lombardo do Slayer, o grupo praticava um pós-thrash empolgante e muito, muito pesado. Em especial se considerarmos que eles só tinham uma guitarra.

Apesar de o Grip Inc. ser sempre lembrado como 'a banda do Dave Lombardo' (e o grupo certamente ficará gravado assim na história do metal), o som deles estava longe de depender exclusivamente da técnica sobre-humana do baterista para funcionar. Nas guitarras, estava o produtor alemão Waldemar Sorychta (que trabalhou com gente como Borknagar, The Gathering, Sentenced e que ganhou fama produzindo o Wildhoney do Tiamat); no baixo, a banda teve dois membros, o americano Jason Viebrooks e o canadense Stuart Carruthers; e, nos vocais, o inglês Gus Chambers. E, levando em conta que o Dave Lombardo é cubano, poderia se dizer que o Grip Inc. é uma banda genuinamente internacional.

Além das composições e das guitarras texturizadas do Waldemar Sorychta e das baquetas inimitáveis, os caras contavam com uma grande força nos vocais do Gus Chambers. O cara trouxe uma clara herança do punk inglês ao som do grupo e sua voz menos polida e técnica, mais suja do que se costuma ouvir no heavy metal, dava um gás extra, uma descarga de energia (pra fazer uma citação descarada de uma banda que certamente teve influência nos vocais do cara) que fazia do Grip Inc. uma banda bem mais particular e interessante. Uma das coisas mais maneiras da voz dele é que você conseguia perceber claramente que o sujeito era inglês só ouvir ele cantar/gritar.

O primeiro disco, Power of inner strength, ainda tinha alguns resquícios do thrash mesmo, mas a banda foi se aprofundando no pós-thrash/groove metal conforme o tempo passou. Os discos na seqüência, Nemesis e, especialmente, Solidify consolidaram o estilo perculiar do grupo. Infelizmente, os caras nunca romperam o estigma de 'banda do Dave Lombardo' e, com a overdose de bandas do gênero que eles tocavam, não chegaram a fazer tanto barulho como poderiam no panorama do metal anos 90.

Com o fim da década, o Grip Inc. ficou uns anos em silêncio e retornou, em 2004, com o disco Incorporated, muito provavelmente o mais ousado da sua curta discografia, que, mais uma vez, não conseguiu dar à banda a projeção que eles mereciam. Com a volta do Dave Lombardo pro Slayer, a carreira da banda ficou suspensa.

E, agora, com a morte do vocalista Gus Chambers, fica impensável o retorno da banda à ativa, sem um dos elementos que davam ao grupo sua personalidade ímpar no metal mundial.

Hora de desencavar os discos da prateleira e dar umas ouvidas em pedradas tipo Savage seas, Hostage to heaven, Ostracized, Isolation e Griefless em homenagem ao cara!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A volta dos que não foram

Antes de mais nada, me sinto na obrigação de dizer que dá um prazer fudido ouvir o Metallica tocando metal de novo. Eu seria um hipócrita se não admitisse isso depois de anos esperando que isso acontecesse.

Dito isso, minhas primeiras impressões sobre o novo CD, Death magnetic, não foram lá muito boas. De lá pra cá, me apeguei ao disco, mas mesmo assim acho que muitos dos elementos que me fizeram reagir negativamente no início ainda estão lá, impedindo que eu ache o disco realmente o 'caralho, Metallica, vocês voltaram, obrigado deus, minha vida mudou!' que muita gente vem clamando por aí.

Mais do que qualquer coisa, acho uma babaquice sem tamanho dizer que o disco é o verdadeiro sucessor do And justice for all etc. e tal. Death magnetic nunca poderia existir sem que a banda antes passasse pelos discos anteriores, em especial pelo St. Anger. Não falo isso só no sentindo 'terapêutico' que o álbum mais odiado da carreira dos caras teve (como todo mundo pôde testemunhar no bizarro documentário Some kind of monster), mas como som mesmo. O novo CD tem vários elementos de St. Anger nas músicas, mesmo que os fãs mais ardorosos não queiram ouvi-los (isso pra não falar que desconsiderar o preto na trajetória do som da banda - e na história do próprio heavy metal - é uma imbecilidade sem fim).

É verdade que as músicas novas têm sim uma proximidade com o And justice for all (assim como o próprio St. Anger tinha uma certa semelhança com o mesmo), tanto em termos de estrutura, na duração das faixas e em diversas passagens que remetem a clássicos antigos.

Uma das coisas mais absurdas que eu já ouvi sobre esse disco é que ele seria o 'verdadeiro novo metal' (new metal) ou coisa do gênero. Death magnetic pode ser muitas coisas, mas novo definitivamente ele não é. O que se ouve aqui é o som de uma banda veterana indo buscar inspiração no seu passado de forma consciente, decidida, não intuitiva ou natural. O resultado é que muitos elementos e passagens soam, por vezes, forçadas. Para os fãs antigos, é impossível não ouvir ecos de músicas imortais do catálogo dos caras, em músicas como The day that never comes (com quase-citações de One e Fade to black), The end of the line (cujo verso principal tem grande semelhança com a parte do meio da The four horsemen), The unforgiven III (sem comentários) e My apocalypse (uma daquelas faixas porradinhas que encerram o disco a la Damage, inc. e Dyers eve).

Isso é especialmente irônico se pensamos nas acusações de vendidos que a banda recebeu desde a gravação do álbum preto em 91. Sinceramente, eu nunca senti que as mudanças do Metallica foram uma decisão consciente de 'se vender', afinal de contas, acho que ninguém pensaria que os caras ficariam mais famosos do que já eram gravando coisas como uma Ronnie ou uma Poor twisted me, pra citar duas músicas do Load que exemplificam bem como a banda estava expandindo seus horizontes musicais na época. De certa forma, o retorno do Metallica ao metal que os consagrou é muito mais forçado do que, por exemplo, a raiva demonstrada no St. Anger, que podia ser um pouco patética, mas pelo menos era sincera.

Juntando os dois argumentos, o pouco que poderia se considerar 'novo' nas músicas está mais ligado ao som do St. Anger do que qualquer outra coisa da carreira da banda. Claro que os discos soam completamente diferentes (e outra louvável diferença entre eles é que as músicas novas são longas, mas não desnecessariamente como no álbum anterior), mas nos dois vemos os riffs mais cadenciados e, digamos, modernos que os aproximam entre si e os distanciam do resto do catálogo do Metallica.

Outro grave defeito de Death magnetic é a produção. Muita gente reclama do som (realmente bizarro) do St. Anger, mas lá a estranheza tinha uma lógica interna, um sentido evidente (por mais desagradável que ela possa ser para os ouvidos como produto final). Aqui, a banda chamou o laureado Rick Rubin pra capitanear as gravações, mas o resultado fica muito aquém das expectativas. As guitarras têm um som meio abafado, mas principalmente a mixagem e o próprio som da bateria destróem totalmente o equilíbrio das músicas e, em muitas passagens, o som realmente incomoda.

(pra quem se interessa por essas coisas, vale a pena ver esse vídeo do youtube que compara as versões das músicas no disco e no novo Guitar hero, em que as do videogame soam muito melhores!)

A questão da produção não é a única que entra em jogo em relação à bateria do disco. A verdade é que o Lars Ulrich sempre foi um baterista limitado, mas ele soube usar suas limitações em favor da banda. Outro dia tava ouvindo a The house Jack built (uma das melhores do Load) e é impressionante como o cara vai fazendo variações simples da linha de bateria que dão à música toda uma camada extra. É verdade também que essa característica do Lars sempre se encaixou melhor nas músicas mais lentas, o que é bem possível de ter causado a mudança estilística radical da banda nos anos 90.

Como em Death magnetic o tempo das músicas está bem mais acelerado que em seus últimos discos (sim, em vários momentos resgatando o thrash de outrora), a atuação do baterista é especialmente comprometedora. Em diversos momentos (nos mais acelerados), parece que ele está se esforçando demais, em outros (mais lentos), a impressão que dá é que ele estava quase desinteressado nas músicas.

Já os outros membros da banda se saem melhor. Os vocais do James Hetfield não têm mais o mesmo peso e a mesma garra de outrora, mas ainda são bem eficientes, tanto nas passagens agressivas quanto nas mais melódicas. A dupla de guitarras tem seus momentos, com destaque nas diversas guitarrinhas dobradas deliciosas de músicas como That was just your life, The end of the line e The day that never comes. Já os solinhos do Kirk Hammet são legais, mas chamam mais atenção por simplesmente estarem de volta do que por sua qualidade. O novo membro, o baixista Robert Trujillo, faz bem seu papel e é particularmente curioso ver que o cara é creditado como compositor em todas as músicas do CD.

O negócio é que, como eu comecei escrevendo, o que Death magnetic representa é, acima de tudo, a volta do Metallica que toca heavy metal. E isso é foda pracaralho.

Com todos os defeitos e repetições que o disco apresenta, não dá pra negar que as músicas são contagiantes e que, puta merda!, eu preciso ver esses caras ao vivo de novo. Talvez aí esteja o verdadeiro teste, pra saber como as novas dez faixas se saem ao lado de genialidades como Seek and destroy, For whom the bell tolls, Master of puppets ou One. Não que o material novo seja perfeito com essas aí de trás, mas esperar isso também já seria injustiça.

Apesar de o disco contar com certos excessos, como músicas demais, uma faixa instrumental absolutamente desnecessária (olha aí a tentativa de voltar aos velhos tempos dando as caras de novo) e alguns momentos aleatórios em certas músicas, o álbum flui bem, apesar de seus mais de 70 minutos.

A primeira metade é especialmente empolgante, com a rápida That was just your life dando o tom do disco, seguida da meio progressiva The end of the line e da pesadona Broken, beat and scarred. A quarta música é o single The day that never comes, que eu já analisei aqui. Se a gente para pra pensar, essas músicas são, faixa a faixa, análogas, em termos de estilo e estrutura, das quatro primeiras tanto do Master of puppets como do And justice for all.

Na seqüência vem a música que talvez melhor sintetize o disco, a ótima All nightmare long. De certa forma, ela se relaciona com todos os elementos da carreira do Metallica que aparecem em Death magnetic, e ao mesmo tempo não soa diretamente como nenhum deles.

Depois disso, o material flutua entre músicas bacanas (Cyanide, My apocalypse) e coisas meio desnecessárias ou passáveis (The unforgiven III, Suicide and redemption, The Judas kiss), mas nunca chega a atingir um nível de ruindade realmente alarmante.

O veredito final? O disco é bom, com certeza. Tem sérios problemas em vários departamentos, mas, porra, como eu vou discutir com o fato de ter me arrependido de apagar o dito cujo do mp3 player depois de ouvi-lo durante dias e agora ficar entrando no youtube no trabalho toda hora pra poder ouvir as músicas? Imperfeito, às vezes forçado, Death magnetic é, ainda assim, um disco potente, empolgante, divertido.

E, porra, é o Metallica tocando metal de novo.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Pelo retrovisor (ao quadrado, assim escrito mesmo porque eu não sei colocar aquele doiszinho em cima)

Ok, o terceiro post da série nem existiu, ou melhor, esse aqui, que deveria ser o quarto acabou ficando mesmo com o número três. E o pior é que eu nem tenho desculpas intelectualóides pro atraso.

(e pior ainda é o fato de eu ter usado o Festival do Rio como desculpa pro último atraso, sendo que, como vocês verão abaixo, eu não vi porra nenhuma de filme)

Enfim, vamos ao que interessa... ou não!


Música:

CarcassSymphonies of sickness:

O tecladinho do início anuncia de cara: com seu segundo disco, o Carcass se distancia da podreira pura e simples do disco anterior e traz seu goregrind para um campo mais trabalhado e técnico. Com produção bem melhor (ou melhor, com produção!), menos faixas e músicas mais longas, Symphonies of sickness é um salto enorme para a carreira da banda (como aliás foram todos os discos dos caras); o que não significa que faltem aqui vocais grotescos, solos dissonantes e estridentes e passagens de pura desgraça musical. Infelizmente, o avanço musical da banda não garante às composições uma identidade individual, fazendo com que o disco por vezes soe como um amontoado embolado e não-identificável de riffs. Mais ou menos como as bizarrices descritas nas letras de músicas com títulos sigelos como Embryonic necropsy and devourment, Cadaveric incubator of endoparasites e Swarming vulgar mass of infected virulency. O que não deixa de fazer um certo sentido.


Destruction - D.E.V.O.L.U.T.I.O.N.:

Depois de revisitar o passado com o disco Thrash anthems, o Destruction volta ao caminho que vinha construindo desde o seu retorno no ano 2000. Como nos quatro discos anteriores, a banda está longe de atingir o vigor criativo dos primeiros anos, mas é fato que os caras chegaram em um ponto onde eles parecem satisfeitos (e até empolgados) em lançar discos simplesmente legais e pronto. Em D.E.V.O.L.U.T.I.O.N. (que tem a pegadinha meio ridícula de as dez músicas começarem com as letras da sigla do título), a banda segue o mesmo formato de acrescentar momentos mais melódicos e mais cadenciados ao seu som, mas as melhores faixas são mesmo aquelas mais descaradamente thrash, como Vicious circle - the seven deadly sins, Odyssey of frustration, No one shall survive e a sensacional faixa-título, que abre o disco com um daqueles agudinhos de thrash que só o Tom Araya tem direito de fazer (mas até que dá pra perdoar o Schmier pela ousadia).


Pink Floyd - More:

No seu terceiro disco, o Pink Floyd abandona mais um pouco do que ainda restava de rock psicodélico no seu som e começa a caminhar na direção que viria a consagrar a banda. Como esse álbum é, na verdade, a trilha sonora de um filme homônimo, grande parte das músicas é instrumental - e segue o exemplo das faixas sem vocais chatas e intermináveis dos dois primeiros discos. Isto é, barulhinhos pentelhos de teclados com viagenzinhas malas de guitarra e umas percussõezinhas desnecessárias. As canções propriamente ditas variam entre rock-meio-pesado genérico do início dos anos 70 e rockinho bem light e viajante. Ou seja, os elementos que compõem o disco são, basicamente, os mesmos que vieram a forjar o som clássico do Pink Floyd, só que aqui eles são usados de forma desconjuntada e sem a mesma naturalidade que viria a marcar a banda inglesa. Totalmente desnecessário, a não ser para os fanáticos por Waters, Gilmour e cia.


Quadrinhos:

Grimms manga (Kei Ishiyama):

As adaptações de histórias ocidentais para os quadrinhos japoneses continuam com força total e um dos últimos títulos lançados aqui no Brasil foi essa revista, que reúne cinco contos dos alemães irmãos Grimm, em versões que tomam as originais como base, mas são bem diferentes do que a gente conhece. Infelizmente, as mudanças feitas com os personagens dos contos de fadas são um tanto quanto aleatórias e todas se encaixam em clichês bem tradicionais dos mangás (por exemplo, o Lobo mau é um jovem herói que se apaixona pela chapeuzinho vermelho, Rapunzel aqui é um homem meio andrógino e o João de João e Maria é um garoto narcisista e meio metrossexual). Escrito e desenhado pela mangaká Kei Ishiyama, a revista também tem sérios problemas narrativos, como diálogos bem fracos (o que talvez seja problema da tradução) e um traço que, apesar de muito detalhado e agradável, é bem confuso na forma de contar a história. O destaque fica para dois contos que eu não conhecia, Os doze caçadores e especialmente Os dois irmãos, que fecha a revista e mostra o potencial que o projeto tinha. Um bônus legal é um artigo que faz um boa contextualização histórica da obra dos irmãos Grimm, mais interessante do que grande parte das histórias da revista.


Livros:

A casa de papel (Juan María Domingues):

Um livro curtinho, de menos de 100 páginas, A casa de papel narra a história de um professor argentino que leciona em Londres e recebe pelo correio um livro, destinado a uma colega recém falecida. Fascinado pelo volume e pela dedicatória nele escrita, o cara parte em uma viagem pra América do Sul afim de encontrar o remetente. A jornada é o ponto de partida pra discutir a paixão pela leitura e, mais que isso, pelos livros. Os personagens de A casa de papel não são simplesmente atraídos pelos livros, ou mesmo colecionadores convencionais, mas pessoas totalmente obcecadas pelos volumes, que ocupam progressivamente espaço nas suas casas e nas suas vidas (não à toa, o sumário na orelha do livro começa com a frase 'os livros são perigosos'). A análise que o autor faz sobre os personagens um tanto trágicos que se envolvem nessa obsessão é bem interessante e, de certa forma, assustadora. De qualquer jeito, é um retrato instigante e criativo sobre a compulsão literária e, mais que isso, sobre a questão do colecionismo/complestismo que hoje, com o acesso infinito à informação da internet, é uma discussão bastante atual.


Cinema:

A erva do rato (Julio Bressane):

É sempre difícil (pra não dizer absurdamente desnecessário) escrever sobre um filme do Julio Bressane. Realizador de um cinema absolutamente particular, o cara aqui parte de dois contos do Machado de Assis (Um esqueleto e A causa secreta) para contar a história de um casal que se conhece em um cemitério, vai morar junto e tem sua rotina quebrada pelo aparecimento de um rato na casa onde eles vivem. Nos papéis, Selton Mello e Alessandra Negrini conseguem aquele tipo de atuação emblemática e icônica só possível no cinema do Bressane e constróem uma química bem peculiar.

A erva do rato é razoavelmente mais narrativo do que grande parte dos filmes do Bressane, apesar de a 'trama' estar longe de ser o elemento central. A verdade é que a parte inicial do filme, em que o casal está sozinho na casa, por mais interessante que seja, é bem mais fraca do que após o aparecimento do rato, que é responsavel por algumas cenas geniais. Pra quem não tem familiaridade com a obra do Bressane, é melhor manter distância e começar por outros filmes, mais antigos; quem conhece já tem uma boa noção se vai curtir A erva do rato ou não, em especial porque aqui não se verifica nenhum grande rompimento em relação à sua obra.


Juventude (Domingos Oliveira):

Em Juventude, Domingos Oliveira faz mais um de seus filmes de 'confissões', só que aqui com homens em vez das mulheres, que dominam grande parte da sua obra. O filme (vídeo?) narra o encontro de três amigos, todos com setenta-anos-ou-quase, durante um dia em uma casa de campo. Os três trocam histórias, que dão a deixa pra boas frases de efeito (a maioria saindo da boca do próprio Domingos, que tem o personagem mais descolado e bacana dos três). Apesar de o roteiro evitar inteligentemente o olhar deprê sobre a velhice, um dos grande problemas do filme está na construção dos personagens, que faz uns julgamentos escrotos e ultra-lineares do tipo 'o cara que era pegador e porra-louca na juventude teve uma filha drogada' e 'o cara certinho virou um velho frustrado que quer pegar menininhas'. Além disso, a deficiência técnica do filme realmente atrapalha em diversos momentos, porque a imagem é muito tosca (em especial quando vista na tela grande) e a fotografia de um certo mau-gosto. A feiúra é tanta que a cartela com o nome do filme no início parece ter sido feita por um muleque de oito anos que acabou de aprender a mexer em um programinha de imagens e é o retrato da precariedade técnica do longa.


Na cidade de Sylvie (José Luiz Guerín):

Tem umas horas que eu sinceramente não consigo entender esse povinho de cinema. A galera da dita 'crítica jovem' (e provavelmente da velha também) do Rio vem puxando incessantemente o saco desse filme, que conta a seguinte história:

Artistinha (com cara de viadinho) vai a Strasburgo atrás da Sylvie do título, que ele conheceu seis anos antes. Além de suas evidentes tendências de maluco psicopata (afinal, quem vai pra uma cidade encontrar uma mulher depois de seis anos sem nem saber se ela ainda vive lá?), ele dá uma de stalker e voyeur ao ficar observando mulheres pelas ruas da cidade. Na seqüência mais bacaninha do filme, Artistinha fica voyerando várias mulheres gatinhas num Baixo Gávea diurno, até que ele vê a Mulher Mais Gatinha do Mundo, que, obviamente, ele fica achando que é a tal Sylvie. Daí, Artistinha fica seguindo a mulher por trinta minutos seguidos sem fazer porra nenhuma! E quando ele finalmente fala com ela, a Mulher Mais Gatinha do Mundo dá mole pra ele e ele só fica se lamentando por ela não ser a Sylvie! Puta que me pariu!

O filme tem outras cenas igualmente bizarras em que o Artistinha vai para um bar (onde ele conheceu a vadia da Sylvie), conversa com uma Gatinha do Baixo Gávea, leva um toco, vê a moça dar mole pra outro, interage com a Gótica Gordinha e depois acorda do lado da Gatinha do Baixo Gávea! Ou então a sequência do metrô, em que o Artistinha fica voyerando gatinhas de várias modalidades, como a Gatinha do Baixo Gávea, a Garçonete Gatinha (na verdade a essa altura do campeonato, nem sei mais se ela aparece nessa cena), a Mulher Mais Gatinha do Mundo ou a Mulher Guryk-Chaal (a Não-Gatinha).

Ok, o filme tem lá seus méritos (especialmente porque não é sempre que você vai ver a Mulher Mais Gatinha do Mundo sendo bem filmada desse jeito, ou seja, por um bom diretor que queira tanto comê-la), a ambientação, em especial sonora, da cidade é muito bem construída etc., mas, porra...

Puta que me pariu!


O bom, o mau, o bizarro (Kim Jee-Woon):

Uma paródia oriental do clássico faroeste Três homens em conflito (mais conhecido como The good, the bad and the ugly, do Sergio Leone), esse filme mistura, em doses bem exageradas, humor, ação e violência, em uma espécie de filtragem pós-Tarantino da proposta do filme italiano. Como a maioria dos discípulos de Tarantino, Kim Jee-Woon perde a mão em diversos momentos e deixa escapar o equilíbrio entre os elementos com que ele pretende compor o filme, fazendo com que cenas que deveriam ser engraçadas sejam simplesmente gratuitas e outras que deveriam ser apoteóticas passem batidas. Mas é inegável que algumas seqüências do filme são divertidíssimas, como a de abertura e grande parte do tiroteio numa espécie de favela cujo nome já não me lembro mais (em que o personagem que representa o 'bizarro' do título usa um capacete de mergulhador pra se proteger dos tiros!). Longe de ser realmente bom como cinema, o filme consegue manter decentemente o interesse ao longo das suas duas horas de duração, o que é mais do que poderia se esperar lendo a sinopse do mesmo.


Videogame:

Blue dragon (Xbox 360):

Não seria exagero dizer que Blue dragon foi um dos jogos mais cercados de expectativas da história dos RPGs. O projeto nasceu da parceria de três grandes personalidades gamísticas japonesas: o mangazeiro Akira Toriyama (criador da série Dragon ball e que trabalha desde 1986 na série Dragon quest); o compositor Nobuo Uematsu (responsável por algumas das mais sensacionais trilhas de videogames de todos os tempos com a série Final fantasy) e o produtor Hironobu Sakaguchi (nada menos que o criador do Final fantasy). Esse foi o primeiro título da produtora Mistwalker, criada por Sakaguchi quando deixou a Square, companhia que fundou nos anos 80 e que é adorada por milhões de nerds através do mundo.

Infelizmente, as expectativas criadas em torno do jogo e de seus criadores fizeram com que ele fosse uma decepção garantida. Em especial porque Blue dragon faz pouco (ou nada) pra se separar da legião de RPGs genéricos que foram feitos desde o crescimento do gênero no fim dos anos 90.

A história gira em torno de três amigos, Shu, Jiro e Kluke, que partem em uma viagem pra libertar a sua vila de um monstro que a destrói de tempos em tempos. Claro que os três amigos vão descobrir que isso está relacionado a uma ameaça muito maior do que aquela inicialmente imaginada; que vão encontrar companheiros para sua aventura; que vão viajar pelo planeta em uma navezinha; que vão cair em incessantes e pentelhas porradas aleatórias; e que vão salvar o mundo. Infelizmente, os personagens e a trama de Blue dragon deixam muito a desejar, caindo nos mais descarados clichês de RPGs conhecidos. O jogo ainda tenta se salvar ao acrescentar elementos de humor à narrativa (por exemplo com a paródia de 'triângulo amoroso' envolvendo os três personagens principais), o que não funciona principalmente porque falta timing na direção das cenas e porque o voice acting é simplesmente terrível.

O sistema do jogo é bem mais old-school do que a maioria dos títulos do gênero que vêm aparecendo por aí (e, graças a deus, foge à tendência atual de misturar elementos de ação no modelo RPGístico). Todos aqueles elementos clássicos como world map, levels, MPs etc. aparecem aqui inalterados do padrão tradicional e a ambientação segue bem de perto o modelo 'mundo de fantasia com elementos high-tech'. Talvez o único elemento 'diferente' da fórmula clássica seja a impossibilidade de comprar/equipar armas e armaduras nos personagens, que aqui são simplesmente substituidos por acessórios.

Isso se deve ao fato de que, em Blue dragon, quem faz as vezes das lutas não são exatamente os personagens, mas umas sombras em forma de bestas mitológicas (como um dragão, uma fênix e um minotauro) que se manifestam logo no início da trama. Além do tradicional level up de personagens, o jogo traz um sistema em que as sombras passam de ranks em diferentes classes, que alteram os atributos de quem está associado a elas, suas habilidades etc. O esquema aqui é daqueles em que o jogador pode customizar cada personagem conforme a sua vontade, já que suas vocações vão estar mais ligadas à classe da sombra do que a uma aptidão original.

O design visual do jogo tem sua força e demonstra claramente o estilo do Akira Toriyama, tanto nos personagens como nos monstros etc. Por outro lado, a aplicação dos designs originais deixa um pouco a desejar, talvez por já termos visto o traço do Toriyama sendo adaptado para a linguagem dos jogos de uma forma impecável no sensacional Dragon quest VIII, do Playstation 2. As músicas do Nobuo Uematsu seguem o padrão de qualidade dos últimos jogos da série Final fantasy em que ele trabalhou, ou seja, são bem fraquinhas. Quase tudo o que se ouve é uma repetição de temais mais antigos (e melhores) do compositor e em nenhum momento aparece a inspiração melódica que o consagrou. O destaque da trilha sonora fica para o tema quase-metal das batalhas de chefe, que conta com uma performance caracterítisca do Ian Gillan (!!!) nos vocais.

Conclusão: Blue dragon, acima de tudo, é frustrante, principalmente porque a parceria entre três grandes nomes dos jogos japoneses poderia indicar um novo gás na obra dos três. Infelizmente, o jogo fica sempre no meio do caminho, com história, jogabilidade e potencial criativo medíocres.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

(Quase) arrependido de ser nerd

Esse fim de semana, o Canecão recebeu a terceira edição do Video Games Live. Pra quem não sabe, o VGL é um evento internacional que popularizou nos Estados Unidos e, por extensão, no ocidente algo que já tinha alguma tradição no Japão: os concertos de música de videogame. O projeto foi criado pelo compositor e presepeiro Tommy Tallarico e vem crescendo em popularidade desde que foi criado.

O conceito da parada é bem simples: tocar uma compilação de músicas de jogos, que vão desde o Pong até títulos que ainda nem foram lançados. Uma espécie de samba-do-crioulo-doido da música de videogame, mas, que no fim das contas, faz um panorama decente dessa história.

Da primeira vez que o show veio pro Brasil, eu estava lá e tenho que confessar (com uma pontinha de vergonha) que foi algo sensacional poder ver aquelas musiquinhas que ocuparam a atenção dos meus ouvidos durante incontáveis horas sendo executadas ao vivo por uma orquestra. Foi uma espécie de legitimação da minha vida de nerdice, apesar de a felicidade geral do dia ser estragada por uma série de excessos como luta de espadas no palco, gente caracterizada como personagens de jogos (pra quem não sabe, isso se chama cosplay... coisa de japonês maluco) e guitarras entrando na hora errada e estragando músicas geniais. Infelizmente, uma ressaca absurda e uma fila interminável fizeram com que eu chegasse no concerto já quase na metade, na hora em que a orquestra começava a tocar Liberi fatali, do Final fantasy VIII, um dos melhores temas de abertura de jogo da história.

Da segunda vez que os caras vieram pro Brasil, eu desanimei porque o setlist era praticamente idêntico ao do ano anterior. Acabei ficando em casa.

Pois bem, esse ano o show levou um downgrade para o Canecão, mas prometia um elevado grau de nerdice já que, além do concerto em si e do concurso de cosplay (!!!), os trabalhos iam ser abertos pelo Megadriver, banda nacional que toca músicas de videogame em versão heavy metal. Ou seja, era um evento meio imperdível, daqueles que você sabe que vai ser tosco, mas que não vai se perdoar nunca de não ter visto.

Quando eu cheguei lá no Canecão, o lugar já tava cheio e a banda no palco... que logo começou a tocar a música do Ken do Street fighter II, colocando a nerdada adolescente em euforia. A seleção das músicas da banda até que não era ruim (contava com a música genial do castelo do Dracula do Castlevania: symphony of the night e a Emerald zone do primeiro Sonic), mas a execução das músicas... aparentemente, os caras acharam que colocar um bumbo duplo meio errado, umas guitarras distorcidas e uns solos completamente aleatórios seria suficiente pra chamar aquilo de 'arranjo'.

É verdade que o público gostou (o que também não significa muita coisa), mas, sinceramente, a melhor coisa da apresentação foi ver a guitarra em forma de cabeça do Sonic que o líder da banda usa.

Depois do curtíssimo show de abertura (que certamente não passou de meia hora, graças a deus), começou a presepada-mór com o concurso de cosplay. Mais revoltante do que a própria existência de um treco desses, só o fato de: a) neguinho ficar delirando com os babacas vestidos no palco, fazendo corinho etc. e b) neguinho dar a porra do prêmio pra um cara vestido de Stormtrooper, que, convenhamos, não é um personagem de videogame! Deveriam ter dado o prêmio pro rapaz que foi de Altair, do Assassin's creed.

Ok, passado o drama, o lugar começou a se preparar pro concerto em si. Na espera, passou um videozinho bacana de pessoas vestidas de Ms. PacMan e dos fantasmas do jogo correndo retardadamente por Nova York.

Enfim, a primeira parte da apresentação não foi de todo mal, em especial porque tinha bastante coisa que eu não vi da primeira vez (como o medley de jogos de fliperama que toca na abertura). O problema é que a gente perdeu tempo demais ouvindo o Tommy Tallarico amigão-da-galera falando baboseiras e querendo interagir com pessoas no palco (que tiveram que jogar um jogo de corrida do Speed racer e algum Guitar hero pra ganhar prêmios).

A acústica do Canecão não ajudou e as músicas mais tradicionais do set, como os medleys do Sonic e do Mario soaram meio estranhas. A seleção do setlist, aliás, privilegiou muitos jogos recentes que musicalmente não me dizem muita coisa, tipo God of war, Mass effect, Halo e o ainda inédito (e aparentemente ansiosamente aguardado pelos nerds) Diablo 3. O melhor dessas músicas era evidenciar o descontrole da nerdada presente, o que era divertido por um lado, mas dava uma certa tristeza por outro. Quer dizer, o que eu vi nessa noite não chegou no nível da gordinha chorando com a música do World of warcraft no primeiro Video Games Live, mas foi deprimente da mesma forma.

Além da orquestra, o evento teve mais uma vez um pianista solo convidado (Horácio!), que subiu duas vezes ao palco e tocou algumas das melhores músicas da noite, como o inesquecível tema da Terra do Final fantasy VI, o tema principal do Chrono cross e uma música genial do Super Mario World que eu não conhecia.

O problema é que toda a noite foi permeada por aquele velho sentimento do 'que que eu tô fazendo aqui'. Não que eu tenha problemas em assumir a minha nerdice (quer dizer, eu não tenho o mesmo orgulho nerd de um Bizerrinha, esse nível tá fora da minha escala), mas a presepada tem limites. E, vendo aquela galera urrando, pulando, fazendo corinhos que estragavam as músicas etc., eu comecei a ficar com vontade de ir embora. Talvez eu esteja ficando velho mesmo.

O clima desagradável chegou ao ápice no fim, quando os caras previsivelmente foram tocar a One winged angel do Final fantasy VII em um 'novo arranjo', que basicamente consistia em mais intervenções da guitarra ridícula do Tommy Tallarico pra arruinar uma música genial (e eu ainda tive que ouvir um nerd idiota dizendo que o cara tocava pracaralho!). Depois, eles tentaram se redimir tocando um medley do Castlevania, mas a guitarra mais uma vez atrapalhou e o show acabou mesmo num clima de insatisfação.

A melhor descrição do fiasco que foi a noite é que o melhor momento, disparado, foi no intervalo quando eles passaram o vídeo My childhood in four minutes, que fez muita gente ali viajar no tempo de uma forma bem mais genuinamente empolgante do que a execução das músicas, que deveriam ter sido apoteóticas, mas foram atrapalhadas pelo som ruim, pelo péssimo apresentador, pela seleção inconsistente da música e, em especial, pelo público.

Video Games Live nunca mais.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Missão: impossível

Primeiramente: Danilo, você é um filho da puta.

Explicação longa e desnecessária da frase anterior, com dois interlúdios:

Esse negócio de neguinho ficar querendo comentário sobre coisas que fizeram é tão natural quanto constrangedor. Mas, ok, quando é alguém que você não conhece muito ou com quem tem pouco contato, dá pra driblar: você dá um risinho, olha pro lado e faz um comentário genérico ou então mente logo descaradamente pra não criar caso. Feito.

(salvo aquelas raras ocasiões em que você realmente gostou da parada; mas isso é tão improvável que talvez nem seja o caso de entrar em detalhes sobre o assunto)

Mas quando a pessoa é um amigo, a solução não é tão simples. Especialmente porque você sabe que, muito provavelmente, o cara vai perceber se você apelar na mentira e vai sacar o seu constrangimento se você quiser se esquivar com frases feitas. Depois, é uma merda pra sua auto-avaliação anual ficar pensando em como você foi um babaca porque não teve coragem de ser sincero com alguém tão próximo etc. e tal.

O agravante número um dessa situação é quando você se depara com alguma coisa que está fora da alçada que você domina. Tu fica olhando o troço e pensa 'porra, que que eu vou falar sobre isso?', preocupado em achar algum sentido naquilo mais pra poder dizer algumas palavras minimamente coerentes do que qualquer coisa. Ou seja, nessas horas é praticamente impossível você se relacionar com aquele objeto de uma forma decente, porque sempre tem aquele fantasma do teu amigo lá no fundo te perguntando:

'e aí, gostou?'

Mas como a pior coisa que se pode fazer nessas horas é fugir da raia, o ideal é chamar o amigo em questão pra encher a porra da cara e falar algumas coisas em estupor alcoólico, já que a cerveja é reconhecidamente o mais poderoso fator socializante do universo. Mesmo que você acabe falando alguma besteira, no fim da noite, seu camarada vai te dar um abraço e dizer que te ama. E se bobear nem vai se lembrar disso no dia seguinte.

Mas como eu fiz uma promessa e sou um cara íntegro, não vou poder me safar assim. Além do mais, é uma boa oportunidade pra escrever e fingir que eu sou um cara produtivo.

(nota para quem não se chama Danilo Lemos: o assunto todo veio à tona porque o já mencionado filho da puta do momento está gravando um disco. O que é uma coisa genial, mesmo que as músicas fossem a maior merda da eternidade. Ele colocou seis pré-faixas no myspace dele e pediu pros amigos fazerem comentários. É, o cara é chique e tem um myspace com aquele playerzinho bacana só de músicas próprias... mas ninguém me tira o direito de criar a página dele no Rate your music quando o disco ficar pronto!)

É bom lembrar que essas gravações ainda estão longe da sua versão final, tendo apenas a bateria e o baixo oficialmente gravados e mixados na improvisação.

Bom, antes de passar pro disco em si, vou fazer um 'disclaimer', ou, em tradução livre, tirar o corpo fora, dizendo que a minha base musical é muito diferente da dele, que nossas influências são muito distintas e que eu não tenho autoridade pra analisar um trabalho desse gênero e que a minha opinião não deve ser levada em conta e blá blá blá. Assim facilita.

Fim da explicação. Vamos às músicas.

"Why so serious?"

A verdade é que eu sempre pensei no Danilo como um MPBeiro: andando por aí dizendo como considera geniais medalhões como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque (nunca me esqueço o dia em que ele me revelou todo emocionado que não conseguia odiar um cara que fazia uma letra com a palavra escafandristas... hahaha, isso é muito bom); e também gente mais obscura tipo Luiz Tatit, Geraldo Vandré e Itamar Assumpção. Coisas que eu passei a maior parte da minha vida ignorando ou rejeitando.

Mas, no fim das contas, partindo da minha rasteira intimidade com o universo da MBP (aqui eu falo da MPB-oficial ou da MPB-gênero e não da música popular brasileira como uma coisa ampla), até que eu acho que as músicas têm, talvez, uma perspectiva de certa maneira rockeira, ou seja, que é uma MPB filtrada através de uma peneira rock 'n' roll.

(puta merda... peneira rock 'n' roll; deus salve os blogs, onde podemos escrever asneiras desse naipe)

Talvez isso seja no fundo um reflexo do fato de que esse texto passa pela minha percepção das coisas e que 97% das minhas referências musicais são de rock; então pode ser uma visão distorcida, o que não deixa de ser uma visão genuína.

De qualquer jeito, o rock, principalmente dos anos 80, saltou das músicas para os meus ouvidos em diversos momentos, em certas passagens até por motivos inesperados: mais de uma vez, eu fui lembrado do Cazuza, que é um cara que eu sei que não está na lista dos favoritos do Danilo. De qualquer jeito, bandas que vão do Legião Urbana ao Biquini Cavadão passaram pela minha cabeça ao ouvir as músicas. Falando de rock mais recente, tem até uma passagem que me lembrou a música Uma Arlinda mulher dos Mamonas Assassinas em 32 vezes.

Pra mim, ironicamente, além da música de trabalho Caminhante madrugada, os destaques são músicas mais lentas como a baladinha Antares. Tem umas músicas em que eu realmente me perco; não sei se as coisas não estão se encaixando na música ou na minha cabeça (é o caso da já citada 32 vezes, por exemplo).

Uma coisa que eu estranhei nessa história toda é que, de certa forma, o Danilo Lemos (crédito: cantor e compositor) é muito diferente do Danilo (crédito: amigo bêbado no Rosa de Ouro). Fica claro que ele leva a música mais a sério do que, bom, praticamente tudo o que existe na vida por aí. A diferença é tão radical que o Dotto (blogueiro que não posta porra nenhuma) me disse que nem reconheceu a voz das primeiras vezes que ouviu. Talvez isso seja da gravação (que, por não ser definitiva, nem vou comentar por aqui). Ou um reflexo de como ele encara o projeto da gravação de um disco.

A verdade é que essa dicotomia MBP/rock 'n' roll causa um efeito interessante pra mim, porque fica um gosto de familiaridade misturado com uma certa estranheza (talvez responsável pelos momentos que eu não 'captei', por assim dizer). Mas as músicas, no geral, são bacanas e, depois de ter ouvido todas umas mil vezes pra escrever esse post interminável, elas não saem da minha cabeça. O que é um bom sinal.

Bom, fica aqui a dica sutil, do tipo 'porra, vão ouvir as músicas do cara, seus inúteis!'

PS: Danilo, você só ganhará negrito no nome quando terminar de gravar a porra do CD!