quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A volta dos que não foram

Antes de mais nada, me sinto na obrigação de dizer que dá um prazer fudido ouvir o Metallica tocando metal de novo. Eu seria um hipócrita se não admitisse isso depois de anos esperando que isso acontecesse.

Dito isso, minhas primeiras impressões sobre o novo CD, Death magnetic, não foram lá muito boas. De lá pra cá, me apeguei ao disco, mas mesmo assim acho que muitos dos elementos que me fizeram reagir negativamente no início ainda estão lá, impedindo que eu ache o disco realmente o 'caralho, Metallica, vocês voltaram, obrigado deus, minha vida mudou!' que muita gente vem clamando por aí.

Mais do que qualquer coisa, acho uma babaquice sem tamanho dizer que o disco é o verdadeiro sucessor do And justice for all etc. e tal. Death magnetic nunca poderia existir sem que a banda antes passasse pelos discos anteriores, em especial pelo St. Anger. Não falo isso só no sentindo 'terapêutico' que o álbum mais odiado da carreira dos caras teve (como todo mundo pôde testemunhar no bizarro documentário Some kind of monster), mas como som mesmo. O novo CD tem vários elementos de St. Anger nas músicas, mesmo que os fãs mais ardorosos não queiram ouvi-los (isso pra não falar que desconsiderar o preto na trajetória do som da banda - e na história do próprio heavy metal - é uma imbecilidade sem fim).

É verdade que as músicas novas têm sim uma proximidade com o And justice for all (assim como o próprio St. Anger tinha uma certa semelhança com o mesmo), tanto em termos de estrutura, na duração das faixas e em diversas passagens que remetem a clássicos antigos.

Uma das coisas mais absurdas que eu já ouvi sobre esse disco é que ele seria o 'verdadeiro novo metal' (new metal) ou coisa do gênero. Death magnetic pode ser muitas coisas, mas novo definitivamente ele não é. O que se ouve aqui é o som de uma banda veterana indo buscar inspiração no seu passado de forma consciente, decidida, não intuitiva ou natural. O resultado é que muitos elementos e passagens soam, por vezes, forçadas. Para os fãs antigos, é impossível não ouvir ecos de músicas imortais do catálogo dos caras, em músicas como The day that never comes (com quase-citações de One e Fade to black), The end of the line (cujo verso principal tem grande semelhança com a parte do meio da The four horsemen), The unforgiven III (sem comentários) e My apocalypse (uma daquelas faixas porradinhas que encerram o disco a la Damage, inc. e Dyers eve).

Isso é especialmente irônico se pensamos nas acusações de vendidos que a banda recebeu desde a gravação do álbum preto em 91. Sinceramente, eu nunca senti que as mudanças do Metallica foram uma decisão consciente de 'se vender', afinal de contas, acho que ninguém pensaria que os caras ficariam mais famosos do que já eram gravando coisas como uma Ronnie ou uma Poor twisted me, pra citar duas músicas do Load que exemplificam bem como a banda estava expandindo seus horizontes musicais na época. De certa forma, o retorno do Metallica ao metal que os consagrou é muito mais forçado do que, por exemplo, a raiva demonstrada no St. Anger, que podia ser um pouco patética, mas pelo menos era sincera.

Juntando os dois argumentos, o pouco que poderia se considerar 'novo' nas músicas está mais ligado ao som do St. Anger do que qualquer outra coisa da carreira da banda. Claro que os discos soam completamente diferentes (e outra louvável diferença entre eles é que as músicas novas são longas, mas não desnecessariamente como no álbum anterior), mas nos dois vemos os riffs mais cadenciados e, digamos, modernos que os aproximam entre si e os distanciam do resto do catálogo do Metallica.

Outro grave defeito de Death magnetic é a produção. Muita gente reclama do som (realmente bizarro) do St. Anger, mas lá a estranheza tinha uma lógica interna, um sentido evidente (por mais desagradável que ela possa ser para os ouvidos como produto final). Aqui, a banda chamou o laureado Rick Rubin pra capitanear as gravações, mas o resultado fica muito aquém das expectativas. As guitarras têm um som meio abafado, mas principalmente a mixagem e o próprio som da bateria destróem totalmente o equilíbrio das músicas e, em muitas passagens, o som realmente incomoda.

(pra quem se interessa por essas coisas, vale a pena ver esse vídeo do youtube que compara as versões das músicas no disco e no novo Guitar hero, em que as do videogame soam muito melhores!)

A questão da produção não é a única que entra em jogo em relação à bateria do disco. A verdade é que o Lars Ulrich sempre foi um baterista limitado, mas ele soube usar suas limitações em favor da banda. Outro dia tava ouvindo a The house Jack built (uma das melhores do Load) e é impressionante como o cara vai fazendo variações simples da linha de bateria que dão à música toda uma camada extra. É verdade também que essa característica do Lars sempre se encaixou melhor nas músicas mais lentas, o que é bem possível de ter causado a mudança estilística radical da banda nos anos 90.

Como em Death magnetic o tempo das músicas está bem mais acelerado que em seus últimos discos (sim, em vários momentos resgatando o thrash de outrora), a atuação do baterista é especialmente comprometedora. Em diversos momentos (nos mais acelerados), parece que ele está se esforçando demais, em outros (mais lentos), a impressão que dá é que ele estava quase desinteressado nas músicas.

Já os outros membros da banda se saem melhor. Os vocais do James Hetfield não têm mais o mesmo peso e a mesma garra de outrora, mas ainda são bem eficientes, tanto nas passagens agressivas quanto nas mais melódicas. A dupla de guitarras tem seus momentos, com destaque nas diversas guitarrinhas dobradas deliciosas de músicas como That was just your life, The end of the line e The day that never comes. Já os solinhos do Kirk Hammet são legais, mas chamam mais atenção por simplesmente estarem de volta do que por sua qualidade. O novo membro, o baixista Robert Trujillo, faz bem seu papel e é particularmente curioso ver que o cara é creditado como compositor em todas as músicas do CD.

O negócio é que, como eu comecei escrevendo, o que Death magnetic representa é, acima de tudo, a volta do Metallica que toca heavy metal. E isso é foda pracaralho.

Com todos os defeitos e repetições que o disco apresenta, não dá pra negar que as músicas são contagiantes e que, puta merda!, eu preciso ver esses caras ao vivo de novo. Talvez aí esteja o verdadeiro teste, pra saber como as novas dez faixas se saem ao lado de genialidades como Seek and destroy, For whom the bell tolls, Master of puppets ou One. Não que o material novo seja perfeito com essas aí de trás, mas esperar isso também já seria injustiça.

Apesar de o disco contar com certos excessos, como músicas demais, uma faixa instrumental absolutamente desnecessária (olha aí a tentativa de voltar aos velhos tempos dando as caras de novo) e alguns momentos aleatórios em certas músicas, o álbum flui bem, apesar de seus mais de 70 minutos.

A primeira metade é especialmente empolgante, com a rápida That was just your life dando o tom do disco, seguida da meio progressiva The end of the line e da pesadona Broken, beat and scarred. A quarta música é o single The day that never comes, que eu já analisei aqui. Se a gente para pra pensar, essas músicas são, faixa a faixa, análogas, em termos de estilo e estrutura, das quatro primeiras tanto do Master of puppets como do And justice for all.

Na seqüência vem a música que talvez melhor sintetize o disco, a ótima All nightmare long. De certa forma, ela se relaciona com todos os elementos da carreira do Metallica que aparecem em Death magnetic, e ao mesmo tempo não soa diretamente como nenhum deles.

Depois disso, o material flutua entre músicas bacanas (Cyanide, My apocalypse) e coisas meio desnecessárias ou passáveis (The unforgiven III, Suicide and redemption, The Judas kiss), mas nunca chega a atingir um nível de ruindade realmente alarmante.

O veredito final? O disco é bom, com certeza. Tem sérios problemas em vários departamentos, mas, porra, como eu vou discutir com o fato de ter me arrependido de apagar o dito cujo do mp3 player depois de ouvi-lo durante dias e agora ficar entrando no youtube no trabalho toda hora pra poder ouvir as músicas? Imperfeito, às vezes forçado, Death magnetic é, ainda assim, um disco potente, empolgante, divertido.

E, porra, é o Metallica tocando metal de novo.

Um comentário:

Eddaih disse...

Achei meio basicão.

E sim, concordo que a mixagem tá estranha. Logo de cara achei que era problema das caixas...