quinta-feira, 9 de outubro de 2008

(Quase) arrependido de ser nerd

Esse fim de semana, o Canecão recebeu a terceira edição do Video Games Live. Pra quem não sabe, o VGL é um evento internacional que popularizou nos Estados Unidos e, por extensão, no ocidente algo que já tinha alguma tradição no Japão: os concertos de música de videogame. O projeto foi criado pelo compositor e presepeiro Tommy Tallarico e vem crescendo em popularidade desde que foi criado.

O conceito da parada é bem simples: tocar uma compilação de músicas de jogos, que vão desde o Pong até títulos que ainda nem foram lançados. Uma espécie de samba-do-crioulo-doido da música de videogame, mas, que no fim das contas, faz um panorama decente dessa história.

Da primeira vez que o show veio pro Brasil, eu estava lá e tenho que confessar (com uma pontinha de vergonha) que foi algo sensacional poder ver aquelas musiquinhas que ocuparam a atenção dos meus ouvidos durante incontáveis horas sendo executadas ao vivo por uma orquestra. Foi uma espécie de legitimação da minha vida de nerdice, apesar de a felicidade geral do dia ser estragada por uma série de excessos como luta de espadas no palco, gente caracterizada como personagens de jogos (pra quem não sabe, isso se chama cosplay... coisa de japonês maluco) e guitarras entrando na hora errada e estragando músicas geniais. Infelizmente, uma ressaca absurda e uma fila interminável fizeram com que eu chegasse no concerto já quase na metade, na hora em que a orquestra começava a tocar Liberi fatali, do Final fantasy VIII, um dos melhores temas de abertura de jogo da história.

Da segunda vez que os caras vieram pro Brasil, eu desanimei porque o setlist era praticamente idêntico ao do ano anterior. Acabei ficando em casa.

Pois bem, esse ano o show levou um downgrade para o Canecão, mas prometia um elevado grau de nerdice já que, além do concerto em si e do concurso de cosplay (!!!), os trabalhos iam ser abertos pelo Megadriver, banda nacional que toca músicas de videogame em versão heavy metal. Ou seja, era um evento meio imperdível, daqueles que você sabe que vai ser tosco, mas que não vai se perdoar nunca de não ter visto.

Quando eu cheguei lá no Canecão, o lugar já tava cheio e a banda no palco... que logo começou a tocar a música do Ken do Street fighter II, colocando a nerdada adolescente em euforia. A seleção das músicas da banda até que não era ruim (contava com a música genial do castelo do Dracula do Castlevania: symphony of the night e a Emerald zone do primeiro Sonic), mas a execução das músicas... aparentemente, os caras acharam que colocar um bumbo duplo meio errado, umas guitarras distorcidas e uns solos completamente aleatórios seria suficiente pra chamar aquilo de 'arranjo'.

É verdade que o público gostou (o que também não significa muita coisa), mas, sinceramente, a melhor coisa da apresentação foi ver a guitarra em forma de cabeça do Sonic que o líder da banda usa.

Depois do curtíssimo show de abertura (que certamente não passou de meia hora, graças a deus), começou a presepada-mór com o concurso de cosplay. Mais revoltante do que a própria existência de um treco desses, só o fato de: a) neguinho ficar delirando com os babacas vestidos no palco, fazendo corinho etc. e b) neguinho dar a porra do prêmio pra um cara vestido de Stormtrooper, que, convenhamos, não é um personagem de videogame! Deveriam ter dado o prêmio pro rapaz que foi de Altair, do Assassin's creed.

Ok, passado o drama, o lugar começou a se preparar pro concerto em si. Na espera, passou um videozinho bacana de pessoas vestidas de Ms. PacMan e dos fantasmas do jogo correndo retardadamente por Nova York.

Enfim, a primeira parte da apresentação não foi de todo mal, em especial porque tinha bastante coisa que eu não vi da primeira vez (como o medley de jogos de fliperama que toca na abertura). O problema é que a gente perdeu tempo demais ouvindo o Tommy Tallarico amigão-da-galera falando baboseiras e querendo interagir com pessoas no palco (que tiveram que jogar um jogo de corrida do Speed racer e algum Guitar hero pra ganhar prêmios).

A acústica do Canecão não ajudou e as músicas mais tradicionais do set, como os medleys do Sonic e do Mario soaram meio estranhas. A seleção do setlist, aliás, privilegiou muitos jogos recentes que musicalmente não me dizem muita coisa, tipo God of war, Mass effect, Halo e o ainda inédito (e aparentemente ansiosamente aguardado pelos nerds) Diablo 3. O melhor dessas músicas era evidenciar o descontrole da nerdada presente, o que era divertido por um lado, mas dava uma certa tristeza por outro. Quer dizer, o que eu vi nessa noite não chegou no nível da gordinha chorando com a música do World of warcraft no primeiro Video Games Live, mas foi deprimente da mesma forma.

Além da orquestra, o evento teve mais uma vez um pianista solo convidado (Horácio!), que subiu duas vezes ao palco e tocou algumas das melhores músicas da noite, como o inesquecível tema da Terra do Final fantasy VI, o tema principal do Chrono cross e uma música genial do Super Mario World que eu não conhecia.

O problema é que toda a noite foi permeada por aquele velho sentimento do 'que que eu tô fazendo aqui'. Não que eu tenha problemas em assumir a minha nerdice (quer dizer, eu não tenho o mesmo orgulho nerd de um Bizerrinha, esse nível tá fora da minha escala), mas a presepada tem limites. E, vendo aquela galera urrando, pulando, fazendo corinhos que estragavam as músicas etc., eu comecei a ficar com vontade de ir embora. Talvez eu esteja ficando velho mesmo.

O clima desagradável chegou ao ápice no fim, quando os caras previsivelmente foram tocar a One winged angel do Final fantasy VII em um 'novo arranjo', que basicamente consistia em mais intervenções da guitarra ridícula do Tommy Tallarico pra arruinar uma música genial (e eu ainda tive que ouvir um nerd idiota dizendo que o cara tocava pracaralho!). Depois, eles tentaram se redimir tocando um medley do Castlevania, mas a guitarra mais uma vez atrapalhou e o show acabou mesmo num clima de insatisfação.

A melhor descrição do fiasco que foi a noite é que o melhor momento, disparado, foi no intervalo quando eles passaram o vídeo My childhood in four minutes, que fez muita gente ali viajar no tempo de uma forma bem mais genuinamente empolgante do que a execução das músicas, que deveriam ter sido apoteóticas, mas foram atrapalhadas pelo som ruim, pelo péssimo apresentador, pela seleção inconsistente da música e, em especial, pelo público.

Video Games Live nunca mais.

Um comentário:

Eddaih disse...

Visualizei totalmente a gordinha chorando com a musica do WoW e vou rir uns 3 ou 4 dias