terça-feira, 14 de outubro de 2008

Pelo retrovisor (ao quadrado, assim escrito mesmo porque eu não sei colocar aquele doiszinho em cima)

Ok, o terceiro post da série nem existiu, ou melhor, esse aqui, que deveria ser o quarto acabou ficando mesmo com o número três. E o pior é que eu nem tenho desculpas intelectualóides pro atraso.

(e pior ainda é o fato de eu ter usado o Festival do Rio como desculpa pro último atraso, sendo que, como vocês verão abaixo, eu não vi porra nenhuma de filme)

Enfim, vamos ao que interessa... ou não!


Música:

CarcassSymphonies of sickness:

O tecladinho do início anuncia de cara: com seu segundo disco, o Carcass se distancia da podreira pura e simples do disco anterior e traz seu goregrind para um campo mais trabalhado e técnico. Com produção bem melhor (ou melhor, com produção!), menos faixas e músicas mais longas, Symphonies of sickness é um salto enorme para a carreira da banda (como aliás foram todos os discos dos caras); o que não significa que faltem aqui vocais grotescos, solos dissonantes e estridentes e passagens de pura desgraça musical. Infelizmente, o avanço musical da banda não garante às composições uma identidade individual, fazendo com que o disco por vezes soe como um amontoado embolado e não-identificável de riffs. Mais ou menos como as bizarrices descritas nas letras de músicas com títulos sigelos como Embryonic necropsy and devourment, Cadaveric incubator of endoparasites e Swarming vulgar mass of infected virulency. O que não deixa de fazer um certo sentido.


Destruction - D.E.V.O.L.U.T.I.O.N.:

Depois de revisitar o passado com o disco Thrash anthems, o Destruction volta ao caminho que vinha construindo desde o seu retorno no ano 2000. Como nos quatro discos anteriores, a banda está longe de atingir o vigor criativo dos primeiros anos, mas é fato que os caras chegaram em um ponto onde eles parecem satisfeitos (e até empolgados) em lançar discos simplesmente legais e pronto. Em D.E.V.O.L.U.T.I.O.N. (que tem a pegadinha meio ridícula de as dez músicas começarem com as letras da sigla do título), a banda segue o mesmo formato de acrescentar momentos mais melódicos e mais cadenciados ao seu som, mas as melhores faixas são mesmo aquelas mais descaradamente thrash, como Vicious circle - the seven deadly sins, Odyssey of frustration, No one shall survive e a sensacional faixa-título, que abre o disco com um daqueles agudinhos de thrash que só o Tom Araya tem direito de fazer (mas até que dá pra perdoar o Schmier pela ousadia).


Pink Floyd - More:

No seu terceiro disco, o Pink Floyd abandona mais um pouco do que ainda restava de rock psicodélico no seu som e começa a caminhar na direção que viria a consagrar a banda. Como esse álbum é, na verdade, a trilha sonora de um filme homônimo, grande parte das músicas é instrumental - e segue o exemplo das faixas sem vocais chatas e intermináveis dos dois primeiros discos. Isto é, barulhinhos pentelhos de teclados com viagenzinhas malas de guitarra e umas percussõezinhas desnecessárias. As canções propriamente ditas variam entre rock-meio-pesado genérico do início dos anos 70 e rockinho bem light e viajante. Ou seja, os elementos que compõem o disco são, basicamente, os mesmos que vieram a forjar o som clássico do Pink Floyd, só que aqui eles são usados de forma desconjuntada e sem a mesma naturalidade que viria a marcar a banda inglesa. Totalmente desnecessário, a não ser para os fanáticos por Waters, Gilmour e cia.


Quadrinhos:

Grimms manga (Kei Ishiyama):

As adaptações de histórias ocidentais para os quadrinhos japoneses continuam com força total e um dos últimos títulos lançados aqui no Brasil foi essa revista, que reúne cinco contos dos alemães irmãos Grimm, em versões que tomam as originais como base, mas são bem diferentes do que a gente conhece. Infelizmente, as mudanças feitas com os personagens dos contos de fadas são um tanto quanto aleatórias e todas se encaixam em clichês bem tradicionais dos mangás (por exemplo, o Lobo mau é um jovem herói que se apaixona pela chapeuzinho vermelho, Rapunzel aqui é um homem meio andrógino e o João de João e Maria é um garoto narcisista e meio metrossexual). Escrito e desenhado pela mangaká Kei Ishiyama, a revista também tem sérios problemas narrativos, como diálogos bem fracos (o que talvez seja problema da tradução) e um traço que, apesar de muito detalhado e agradável, é bem confuso na forma de contar a história. O destaque fica para dois contos que eu não conhecia, Os doze caçadores e especialmente Os dois irmãos, que fecha a revista e mostra o potencial que o projeto tinha. Um bônus legal é um artigo que faz um boa contextualização histórica da obra dos irmãos Grimm, mais interessante do que grande parte das histórias da revista.


Livros:

A casa de papel (Juan María Domingues):

Um livro curtinho, de menos de 100 páginas, A casa de papel narra a história de um professor argentino que leciona em Londres e recebe pelo correio um livro, destinado a uma colega recém falecida. Fascinado pelo volume e pela dedicatória nele escrita, o cara parte em uma viagem pra América do Sul afim de encontrar o remetente. A jornada é o ponto de partida pra discutir a paixão pela leitura e, mais que isso, pelos livros. Os personagens de A casa de papel não são simplesmente atraídos pelos livros, ou mesmo colecionadores convencionais, mas pessoas totalmente obcecadas pelos volumes, que ocupam progressivamente espaço nas suas casas e nas suas vidas (não à toa, o sumário na orelha do livro começa com a frase 'os livros são perigosos'). A análise que o autor faz sobre os personagens um tanto trágicos que se envolvem nessa obsessão é bem interessante e, de certa forma, assustadora. De qualquer jeito, é um retrato instigante e criativo sobre a compulsão literária e, mais que isso, sobre a questão do colecionismo/complestismo que hoje, com o acesso infinito à informação da internet, é uma discussão bastante atual.


Cinema:

A erva do rato (Julio Bressane):

É sempre difícil (pra não dizer absurdamente desnecessário) escrever sobre um filme do Julio Bressane. Realizador de um cinema absolutamente particular, o cara aqui parte de dois contos do Machado de Assis (Um esqueleto e A causa secreta) para contar a história de um casal que se conhece em um cemitério, vai morar junto e tem sua rotina quebrada pelo aparecimento de um rato na casa onde eles vivem. Nos papéis, Selton Mello e Alessandra Negrini conseguem aquele tipo de atuação emblemática e icônica só possível no cinema do Bressane e constróem uma química bem peculiar.

A erva do rato é razoavelmente mais narrativo do que grande parte dos filmes do Bressane, apesar de a 'trama' estar longe de ser o elemento central. A verdade é que a parte inicial do filme, em que o casal está sozinho na casa, por mais interessante que seja, é bem mais fraca do que após o aparecimento do rato, que é responsavel por algumas cenas geniais. Pra quem não tem familiaridade com a obra do Bressane, é melhor manter distância e começar por outros filmes, mais antigos; quem conhece já tem uma boa noção se vai curtir A erva do rato ou não, em especial porque aqui não se verifica nenhum grande rompimento em relação à sua obra.


Juventude (Domingos Oliveira):

Em Juventude, Domingos Oliveira faz mais um de seus filmes de 'confissões', só que aqui com homens em vez das mulheres, que dominam grande parte da sua obra. O filme (vídeo?) narra o encontro de três amigos, todos com setenta-anos-ou-quase, durante um dia em uma casa de campo. Os três trocam histórias, que dão a deixa pra boas frases de efeito (a maioria saindo da boca do próprio Domingos, que tem o personagem mais descolado e bacana dos três). Apesar de o roteiro evitar inteligentemente o olhar deprê sobre a velhice, um dos grande problemas do filme está na construção dos personagens, que faz uns julgamentos escrotos e ultra-lineares do tipo 'o cara que era pegador e porra-louca na juventude teve uma filha drogada' e 'o cara certinho virou um velho frustrado que quer pegar menininhas'. Além disso, a deficiência técnica do filme realmente atrapalha em diversos momentos, porque a imagem é muito tosca (em especial quando vista na tela grande) e a fotografia de um certo mau-gosto. A feiúra é tanta que a cartela com o nome do filme no início parece ter sido feita por um muleque de oito anos que acabou de aprender a mexer em um programinha de imagens e é o retrato da precariedade técnica do longa.


Na cidade de Sylvie (José Luiz Guerín):

Tem umas horas que eu sinceramente não consigo entender esse povinho de cinema. A galera da dita 'crítica jovem' (e provavelmente da velha também) do Rio vem puxando incessantemente o saco desse filme, que conta a seguinte história:

Artistinha (com cara de viadinho) vai a Strasburgo atrás da Sylvie do título, que ele conheceu seis anos antes. Além de suas evidentes tendências de maluco psicopata (afinal, quem vai pra uma cidade encontrar uma mulher depois de seis anos sem nem saber se ela ainda vive lá?), ele dá uma de stalker e voyeur ao ficar observando mulheres pelas ruas da cidade. Na seqüência mais bacaninha do filme, Artistinha fica voyerando várias mulheres gatinhas num Baixo Gávea diurno, até que ele vê a Mulher Mais Gatinha do Mundo, que, obviamente, ele fica achando que é a tal Sylvie. Daí, Artistinha fica seguindo a mulher por trinta minutos seguidos sem fazer porra nenhuma! E quando ele finalmente fala com ela, a Mulher Mais Gatinha do Mundo dá mole pra ele e ele só fica se lamentando por ela não ser a Sylvie! Puta que me pariu!

O filme tem outras cenas igualmente bizarras em que o Artistinha vai para um bar (onde ele conheceu a vadia da Sylvie), conversa com uma Gatinha do Baixo Gávea, leva um toco, vê a moça dar mole pra outro, interage com a Gótica Gordinha e depois acorda do lado da Gatinha do Baixo Gávea! Ou então a sequência do metrô, em que o Artistinha fica voyerando gatinhas de várias modalidades, como a Gatinha do Baixo Gávea, a Garçonete Gatinha (na verdade a essa altura do campeonato, nem sei mais se ela aparece nessa cena), a Mulher Mais Gatinha do Mundo ou a Mulher Guryk-Chaal (a Não-Gatinha).

Ok, o filme tem lá seus méritos (especialmente porque não é sempre que você vai ver a Mulher Mais Gatinha do Mundo sendo bem filmada desse jeito, ou seja, por um bom diretor que queira tanto comê-la), a ambientação, em especial sonora, da cidade é muito bem construída etc., mas, porra...

Puta que me pariu!


O bom, o mau, o bizarro (Kim Jee-Woon):

Uma paródia oriental do clássico faroeste Três homens em conflito (mais conhecido como The good, the bad and the ugly, do Sergio Leone), esse filme mistura, em doses bem exageradas, humor, ação e violência, em uma espécie de filtragem pós-Tarantino da proposta do filme italiano. Como a maioria dos discípulos de Tarantino, Kim Jee-Woon perde a mão em diversos momentos e deixa escapar o equilíbrio entre os elementos com que ele pretende compor o filme, fazendo com que cenas que deveriam ser engraçadas sejam simplesmente gratuitas e outras que deveriam ser apoteóticas passem batidas. Mas é inegável que algumas seqüências do filme são divertidíssimas, como a de abertura e grande parte do tiroteio numa espécie de favela cujo nome já não me lembro mais (em que o personagem que representa o 'bizarro' do título usa um capacete de mergulhador pra se proteger dos tiros!). Longe de ser realmente bom como cinema, o filme consegue manter decentemente o interesse ao longo das suas duas horas de duração, o que é mais do que poderia se esperar lendo a sinopse do mesmo.


Videogame:

Blue dragon (Xbox 360):

Não seria exagero dizer que Blue dragon foi um dos jogos mais cercados de expectativas da história dos RPGs. O projeto nasceu da parceria de três grandes personalidades gamísticas japonesas: o mangazeiro Akira Toriyama (criador da série Dragon ball e que trabalha desde 1986 na série Dragon quest); o compositor Nobuo Uematsu (responsável por algumas das mais sensacionais trilhas de videogames de todos os tempos com a série Final fantasy) e o produtor Hironobu Sakaguchi (nada menos que o criador do Final fantasy). Esse foi o primeiro título da produtora Mistwalker, criada por Sakaguchi quando deixou a Square, companhia que fundou nos anos 80 e que é adorada por milhões de nerds através do mundo.

Infelizmente, as expectativas criadas em torno do jogo e de seus criadores fizeram com que ele fosse uma decepção garantida. Em especial porque Blue dragon faz pouco (ou nada) pra se separar da legião de RPGs genéricos que foram feitos desde o crescimento do gênero no fim dos anos 90.

A história gira em torno de três amigos, Shu, Jiro e Kluke, que partem em uma viagem pra libertar a sua vila de um monstro que a destrói de tempos em tempos. Claro que os três amigos vão descobrir que isso está relacionado a uma ameaça muito maior do que aquela inicialmente imaginada; que vão encontrar companheiros para sua aventura; que vão viajar pelo planeta em uma navezinha; que vão cair em incessantes e pentelhas porradas aleatórias; e que vão salvar o mundo. Infelizmente, os personagens e a trama de Blue dragon deixam muito a desejar, caindo nos mais descarados clichês de RPGs conhecidos. O jogo ainda tenta se salvar ao acrescentar elementos de humor à narrativa (por exemplo com a paródia de 'triângulo amoroso' envolvendo os três personagens principais), o que não funciona principalmente porque falta timing na direção das cenas e porque o voice acting é simplesmente terrível.

O sistema do jogo é bem mais old-school do que a maioria dos títulos do gênero que vêm aparecendo por aí (e, graças a deus, foge à tendência atual de misturar elementos de ação no modelo RPGístico). Todos aqueles elementos clássicos como world map, levels, MPs etc. aparecem aqui inalterados do padrão tradicional e a ambientação segue bem de perto o modelo 'mundo de fantasia com elementos high-tech'. Talvez o único elemento 'diferente' da fórmula clássica seja a impossibilidade de comprar/equipar armas e armaduras nos personagens, que aqui são simplesmente substituidos por acessórios.

Isso se deve ao fato de que, em Blue dragon, quem faz as vezes das lutas não são exatamente os personagens, mas umas sombras em forma de bestas mitológicas (como um dragão, uma fênix e um minotauro) que se manifestam logo no início da trama. Além do tradicional level up de personagens, o jogo traz um sistema em que as sombras passam de ranks em diferentes classes, que alteram os atributos de quem está associado a elas, suas habilidades etc. O esquema aqui é daqueles em que o jogador pode customizar cada personagem conforme a sua vontade, já que suas vocações vão estar mais ligadas à classe da sombra do que a uma aptidão original.

O design visual do jogo tem sua força e demonstra claramente o estilo do Akira Toriyama, tanto nos personagens como nos monstros etc. Por outro lado, a aplicação dos designs originais deixa um pouco a desejar, talvez por já termos visto o traço do Toriyama sendo adaptado para a linguagem dos jogos de uma forma impecável no sensacional Dragon quest VIII, do Playstation 2. As músicas do Nobuo Uematsu seguem o padrão de qualidade dos últimos jogos da série Final fantasy em que ele trabalhou, ou seja, são bem fraquinhas. Quase tudo o que se ouve é uma repetição de temais mais antigos (e melhores) do compositor e em nenhum momento aparece a inspiração melódica que o consagrou. O destaque da trilha sonora fica para o tema quase-metal das batalhas de chefe, que conta com uma performance caracterítisca do Ian Gillan (!!!) nos vocais.

Conclusão: Blue dragon, acima de tudo, é frustrante, principalmente porque a parceria entre três grandes nomes dos jogos japoneses poderia indicar um novo gás na obra dos três. Infelizmente, o jogo fica sempre no meio do caminho, com história, jogabilidade e potencial criativo medíocres.

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